
Convites permanentes à reflexão. Fomento de ponderações racionais construtivas. Textos de Filosofia, Teologia e Direito. Tentativas constantes de análise do mundo sob as perspectivas filosófica e teológica.
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domingo, 15 de dezembro de 2013
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
domingo, 18 de março de 2012
Milagre: razão ou fé?
Um milagre é "uma transgressão de uma lei da Natureza pela
vontade de uma Divindade, ou a interposição de um agente invisivel." (Hume, p.
123n) Teologos das religiões do Antigo e Novo Testamento consideram apenas Deus como
capaz de vencer as leis da Natureza e executar verdadeiros milagres. Contudo, admitem que
outros possam fazer coisas que desafiam as leis da natureza; tais actos são atribuidos a
poderes diabólicos e são chamados "falsos milagres". Muitos fora das
religiões baseadas na Biblia acreditam na possibilidade de transgredir as leis da
natureza através de actos de vontade em consonância com poderes ocultos ou paranormais.
Mas geralmente referem-se a estas transgressões não como milagres mas como mágicas.
Todas as religiões registam milagres. Como Hume notou, as
religiões estabeleceram-se sobre os seus milagres. Mas, se é assim, cancelam-se umas às
outras. Hume compara o decidir entre religiões com base nos seus milagres com a tarefa de
um juiz que deve avaliar testemunhos contraditórios mas igualmente fiáveis.
Mais esclarecedor é o facto de que quanto mais antigo e barbaro é
um povo, maior a tendência para milagres e prodígios florescerem..
Hume era um historiador, bem como filósofo, e não lhe passou
despercebido o facto que quanto mais recuamos na história, mais relatos temos de
milagres. E, apesar de haver muita gente hoje que acredita em milagres, mas é pouco
provável que qualquer historiador do século vinte encha os seus livros de relatos
miraculosos. É improvável que um único relato destes encontre lugar em tais livros.
Hume estava consciente de que independentemente de quão cientifica
ou racional uma civilização se tornasse, a crença em milagres nunca seria erradicada. A
natureza humana curva-se ante o maravilhoso. Vaidade e ilusão levaram a mais de uma
fraude piedosa suportando a causa sagrada e meritória com grandes embelezamentos e
mentiras acerca de feitos miraculosos. (Hume, p. 136)
O principal argumento de Hume contudo, foi modelado a partir da
argumentação feita por John Tillotson, que se tornou Arcebispo de Canterbury. Tillotson
e outros como William Chillingworth antes dele e o seu contemporâneo Bispo Edward
Stillingfleet argumentaram com o que chamaram uma defesa de "senso comum" do
Cristianismo, i.e., Anglicanismo. O argumento de Tillotson contra a doutrina Católica da
Transubstanciação ou "a real presença" era simple e directa. A ideia contradiz os sentidos de que o pão e o vinho usados nas cerimónias são mudados em
algo que é pão e vinho para os sentidos mas que realmente será o corpo e sangue de
Cristo. Se parece pão, cheira a pão, sabe a pão, então é pão. Desistir disto
é abdicar de todo o conhecimento baseado na experiência. Qualquer coisa pode ser outra
que não o que os sentidos mostram. Este argumento nada tem a ver com o argumento céptico
da incerteza do conhecimento dos sentidos. Isto é um argumento acerca da crença
razoável. Se os Catóticos tivessem razão acerca da consubstanciação, então um livro
podia ser um bispo. Os acidentes de uma coisa não dariam pistas para a sua substância.
Tudo o que vemos pode ser completamente não relacionado com o que parece ser. Tal mundo
não seria razoável. Se os sentidos não podem ser confiados num caso, não podem sê-lo
em caso nenhum. Acreditar na consubstanciação é abandonar a base de todo o
conhecimento: a experiência dos sentidos.
Hume começa o seu ensaio sobre milagres elogiando a argumentação
de Tillotson como sendo "tão conciso e elegante e forte como qualquer argumento o
pode ser contra uma doutrina tão pouco merecedora de uma refutação séria."
Continua afirmando que pensa ter "descoberto um argumento de tal natureza que, se certo, pode ser
um eterno verificar de todo o tipo de superstições, e consequentemente será util
enquanto o mundo durar; até ao fim, presumo, os relatos de milagres e profecias serão
encontrados na história, sagrada e profana". [Hume, p. 118]
O seu argumento é um paradigma de simplicidade e elegância: Um milagre é uma violação das leis da natureza; e como
uma experiência firme e inalterável estabeleceu essas leis, a prova contra um milagre,
da própria natureza do facto, é tão inteira quanto qualquer argumento a partir da
experiência pode ser imaginado.[p. 122.]
Ou pondo ainda mais sucintamente:
Tem de... existir uma experiência uniforme contra qualquer
acontecimento miraculoso, pois de outro modo o acontecimento não mereceria aquela
apelação.[p. 122]
A implicação lógica deste argumento é que
nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre
a menos que aquele fosse de um tipo tal que a sua falsidade fosse ainda mais miraculosa
que o facto que tenta estabelecer. [p. 123]
O que Hume fez foi pegar no argumento anglicano so senso comum
contra a doutrina católica da consubstanciação e aplicá-lo aos milagres, base de todas
as seitas católicas. As leis da natureza não se estabeleceram por ocasionais ou
frequentes experiências similares, mas por uma experiência uniforme. É
"mais que provavel," diz Hume, que todos os homens morram, que o chumbo não
fique suspenso no ar, que o fogo consuma madeira e a água o extinga. Se alguém afirmar a
Hume que um homem consegur manter chumbo suspenso no ar por um acto de vontade, Hume
perguntar-se-ia se "a falsidade do testemunho é mais miraculoso que o facto que
relata." Se assim fôr, ele acredita no testemunho. Contudo, ele não acredita que um
milagre pudesse ser estabelecido com base nesta evidência.
Considere o facto de que a uniformidade da experiência das pessoas
em todo o mundo lhe diz que uma vez uma perna amputada, ela não volta a crescer. O que
pensaria se um seu amigo, um cientista de elevada integridade, lhe dissesse que quando
estava de férias em Espanha encontrou um homem que não tinha pernas mas agora caminha
com dois magnificos membros inferiores. Diz-lhe que um homem santo esfregou um óleo nos
tocos e as pernas cresceram. O homem vive numa pequena aldeia e todos os aldeões atestam
o "milagre." O seu amigo está convencido de que um milagre ocorreu. Em que é
que acredita? Acreditar neste milagre seria rejeitar o principio da uniformidade da
experiência, em que as leis da natureza se baseiam. Seria rejeitar uma assunção
fundamental de toda a ciência, de que as leis da natureza são invioláveis. O milagre
não pode ser aceite ser abandonar um principio básico do conhecimento empirico: que
coisas iguais em circunstâncias iguais produzem resultados iguais.
Claro que há outra constante que não devemos esquecer: a
tendência das pessoas em todos os tempos desejarem algo de maravilhoso, de se iludirem
com isso, de o fabricar, de o embelezar, e de acreditarem nas suas invenções com
paixão. Quer isto dizer que os milagres acontecem? Claro que não. Significa que quando
alguem relata um milagre a probabilidade de estar enganada, iludida ou a enganar é muito
superior à do milagre ter realmente acontecido. Acreditar num milagre, como dizia Hume,
não é um ato de razão mas de fé.
(skepdic)
domingo, 15 de janeiro de 2012
Conhecer ou pensar que conhece?
Existe uma grande diferença entre “conhecer” e “pensar que conhece”. Espera-se do conhecedor o exercício pleno de sua capacidade racional. Conhece porque auferiu subsídios em ações individuais.Aquele que pensa que conhece é um cego que não enxerga a escuridão na qual se encontra. Na realidade assimilou os pensamentos que vagueavam e/ou vagueiam próximos ao seu contexto e os sugou. Confunde absorção do pensamento de terceiros com aquisição de conhecimentos personalizados.
É natural supor que tudo o que existe no mundo já é de conhecimento geral, não me concentro nisso. Chamo a atenção para a realidade: a ausência plena de questionamento impede a pessoa de chegar aos fatos usando a própria mente. Por usar o pensar de terceiros o indivíduo deixa de usufruir da maior capacidade humana: a racionalidade.
Quem contribui para isso? A educação que conduz ao condicionamento sem especulação. Não apenas a educação. O viés religioso é, quem sabe, o principal fator de obliteração da mente.
O que normalmente ocorre: os pais, que não questionam, repassam “seus conhecimentos” acrescidos da famigerada bitola que receberam dos seus ancestrais.
Esse direcionamento, recebido no seio da família, na escola e no contexto religioso, forma pessoas aptas para a atual sociedade de consumo. Consumo de tudo o que passar pela frente, tanto no campo material quanto no campo das ideias.
Hoje é praticamente impossível encontrar, na maioria das pessoas, um traço de escolha sem preconceitos ou sem direcionamentos. É um atentado à capacidade do homem para pensar e traçar seu caminho.
Quem hoje tem coragem suficiente para olhar para dentro de si e perguntar: conheço do que eu quis conhecer ou conheço daquilo que me fizeram conhecer? Posso dizer que conheço alguma coisa? Devo admitir que na realidade eu sou fruto do que fizeram à minha mente e das “escolhas” que me impuseram?
Sabemos que influências existem e que nos afetam. Sabemos também que existe muito a conhecer e que está à nossa disposição. À disposição e livre. Livre e à vontade. O exercício do livre pensar é sem limites para quem o queira. Queira e tenha coragem. Coragem suficiente para (até) romper com toda a tradição acumulada.
Enéias Teles Borges
Postagem original: 30/04/2008.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
É possível pensar livremente?
Segundo Schopenhauer, “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós”. Não queria ele desencorajar o hábito da leitura, mas sim o hábito da leitura desacompanhada do pensamento crítico. Schopenhauer defendia a necessidade de pensar por conta própria, sem se deixar engolir pelo pensamento alheio, diminuindo o risco de nos tornarmos meros papagaios repetidores de idéias alheias. E quantos papagaios voam livremente por aí! Propagando as idéias alheias e bicando todos os que as questionam, visto que esta é sua única forma de defesa, já que não dominam as idéias que vivem a repetir e são incapazes de justificá-las.
Texto completo: Leite com Manga faz Mal?
Nota: Recomendo, como sempre, a leitura completa do texto. Não apenas deste, mas de todos existentes na fantástica página do Carlos Barth.
Nota: Recomendo, como sempre, a leitura completa do texto. Não apenas deste, mas de todos existentes na fantástica página do Carlos Barth.
Enéias Teles Borges
domingo, 29 de maio de 2011
Deus existe?
Para aqueles que gostam de soluções com base no pensamento grego, notadamente naquilo que propôs Aristóteles, eis um prato cheio. Nada como poder se servir da filosofia quando for conveniente.
Eis um belo exemplo:
DEUS EXISTE?
Um professor ateu desafiou seus alunos com esta pergunta:
- Deus fez tudo que existe?
- Um estudante respondeu corajosamente: - "Sim, fez!"
- Deus fez tudo, mesmo?
- Sim, professor - respondeu o jovem.
- O professor replicou:
- Se Deus fez todas as coisas, então Deus fez o mal, pois o mal existe, e considerando-se que nossas ações são um reflexo de nós mesmos, então Deus é mal.
O estudante calou-se diante de tal resposta e o professor, feliz, se vangloriava de haver provado uma vez mais que a Fé era um mito.
Outro estudante levantou sua mão e disse:
- Posso lhe fazer uma pergunta, professor?
- Sem dúvida, respondeu-lhe o professor.
O jovem ficou de pé e perguntou:
- Professor, o frio existe?
- Mas que pergunta é essa? Claro que existe, você por acaso nunca sentiu frio?
O rapaz respondeu:
- Na verdade, professor, o frio não existe. Segundo as leis da Física, o que consideramos frio, na realidade é ausência de calor. Todo corpo ou objeto pode ser estudado quando tem ou transmite energia, mas é o calor não o frio que faz com que tal corpo tenha ou transmita energia. O zero absoluto é a ausência total e absoluta de calor, todos os corpos ficam inertes, incapazes de reagir, mas o frio não existe. Criamos esse termo para descrever como nos sentimos quando nos falta o calor.
- E a escuridão, existe? - continuou o estudante.
O professor respondeu:
- Mas é claro que sim.
O estudante respondeu:
- Novamente o senhor se engana, a escuridão tampouco existe. A escuridão é na verdade a ausência de luz. Podemos estudar a luz, mas a escuridão não. O prisma de Newton decompõe a luz branca nas varias cores de que se compõe, com seus diferentes comprimentos de onda.
- A escuridão não. Um simples raio de luz rasga as trevas e ilumina a superfície que a luz toca.
- Como se faz para determinar quão escuro está um determinado local do espaço?
- Apenas com base na quantidade de luz presente nesse local, não é mesmo?
Escuridão é um termo que o homem criou para descrever o que acontece quando não há luz presente.
- Finalmente, o jovem estudante perguntou ao professor:
- Diga, professor, o mal existe?
- Ele respondeu:
- Claro que existe. Como eu disse no início da aula, vemos roubos, crimes e violência diariamente em todas as partes do mundo, essas coisas são o mal.
Então o estudante respondeu:
- O mal não existe, professor, ou ao menos não existe por si só. O mal é simplesmente a ausência de Deus. É, como nos casos anteriores, um termo que o homem criou para descrever essa ausência de Deus. Deus não criou o mal. Não é como a fé ou o amor, que existem como existe a luz e o calor. O mal resulta de que a humanidade não tenha Deus presente em seus corações. É como o frio que surge quando não há calor, ou a escuridão que acontece quando não há luz.
Fonte: (Koinonia)
Nota: Chamo a atenção para uma peculiaridade: é lógico que a elaboração de um texto como este supra é de autoria de um criacionista. O evolucionista acharia um jeito de usar o mesmo texto para seus propósitos. O motivo desta postagem é simples: chamar a atenção do leitor para o JOGO da conveniência. Em geral os filósofos gregos são evitados num contexto eminentemente religioso. A filosofia não tem como objetivo substanciar uma idéia ou outra (evolucionismo ou criacionismo). Um texto como este acima pode ser falacioso na medida em que usa apenas parte do pensamento de um filósofo: aquela que convém. Usar o pensamento filosófico em sua essência não seria conveniente para os dois lados, mas convenhamos: usar um texto, fora do contexto, para apoiar uma idéia é no mínimo um atentado à ética. Não importa se quem usa é criacionista ou evolucionista.
Enéias Teles Borges
Postagem original: 22/01/2008
quinta-feira, 24 de março de 2011
Declips, Decleps e Declei

Quando eu era criança, acredito que com oito anos, eu ouvi de alguém que três astronautas tinham ido à lua. Foi algo espetacular! Comecei a entender um pouco do assunto. Viagem à lua! Algo que me impressionou muito naquela época.
Eu era tido, por alguns, como sendo um garoto inteligente e curioso. Procurei saber mais do assunto “homem x lua”. Ouvi de alguma pessoa brincalhona ou desinformada que os três astronautas tinham os seguintes nomes: Declips, Decleps e Declei. Eu acreditei piamente nisso!
Passei a demonstrar minha “grande inteligência e conhecimento” difundindo essa informação atual e espetacular. Eu sabia, inclusive, os nomes dos famosos astronautas que obtiveram sucesso na viagem espacial! Eu era o cara!
Foi com imenso desapontamento que eu soube, bem depois, que os astronautas da Apollo 11 chamavam-se: Neil Armstrong, Michael Collins e “Buzz” Aldrin...
O meu conhecimento a respeito do assunto não passou de uma piada. Eu me considerava o bem informado e articulado. Na realidade eu era apenas uma criança que “engoliu” a informação falsa de alguém e a passou adiante como sendo verdadeira.
Eu confiava nas pessoas e por esse motivo não questionava as informações.
Hoje eu medito sobre esse assunto tão antigo e me pergunto se depois desse ocorrido eu não tive atitudes semelhantes, achando que conhecia alguma coisa, simplesmente por ter ouvido de outras pessoas.
Às vezes até sinto certo constrangimento por ter acreditado e difundido algumas inverdades. Eu me pergunto: por que confiei tanto em alguns professores que tive, quando fiz minha primeira faculdade?
Sei que espalhei muitas informações parecidas com a dos “astronautas” Declips, Decleps e Declei...
Só que no que tange aos supostos astronautas eu era uma criança! Ao longo dos quatro anos de faculdade eu tive todas as oportunidades para questionar (no bom sentido) as informações que vinham e que fui armazenando.
Como eu gostaria de poder voltar no tempo para dizer os verdadeiros nomes dos astronautas. Mas eu me perdôo (por isso) porque eu não passava de um moleque imberbe.
Mas, o que veio depois, seria perdoável? Qual a desculpa que tenho hoje por ter confiado tanto em antigos professores que por má-fé ou negligência, ensinaram-me teorias que sei, agora, não passam de malditos engodos?
Caro leitor: sinta-se livre para aprender um pouco com essa faceta de minha história. Caso tenha alguma chance de questionar faça-o já! É melhor ser tido como uma pessoa polêmica do que ser considerado (no futuro) como um ex-aluno omisso ou “ex-alguma-coisa” omissa...
Sei que ainda padecemos do ranço da ditadura militar que impediu o exercício do livre pensar. Nossos pais, em parte, são resultados disso e nós também. Quantas vezes fomos emparedados por eles (nossos pais) com frases obscuras, tentando fugir do assunto ou mesmo dizendo que estávamos especulando?
Talvez por isso eu me conceda um perdão parcial
Enéias Teles Borges
Postagem original: 09/04/2008
Eu era tido, por alguns, como sendo um garoto inteligente e curioso. Procurei saber mais do assunto “homem x lua”. Ouvi de alguma pessoa brincalhona ou desinformada que os três astronautas tinham os seguintes nomes: Declips, Decleps e Declei. Eu acreditei piamente nisso!
Passei a demonstrar minha “grande inteligência e conhecimento” difundindo essa informação atual e espetacular. Eu sabia, inclusive, os nomes dos famosos astronautas que obtiveram sucesso na viagem espacial! Eu era o cara!
Foi com imenso desapontamento que eu soube, bem depois, que os astronautas da Apollo 11 chamavam-se: Neil Armstrong, Michael Collins e “Buzz” Aldrin...
O meu conhecimento a respeito do assunto não passou de uma piada. Eu me considerava o bem informado e articulado. Na realidade eu era apenas uma criança que “engoliu” a informação falsa de alguém e a passou adiante como sendo verdadeira.
Eu confiava nas pessoas e por esse motivo não questionava as informações.
Hoje eu medito sobre esse assunto tão antigo e me pergunto se depois desse ocorrido eu não tive atitudes semelhantes, achando que conhecia alguma coisa, simplesmente por ter ouvido de outras pessoas.
Às vezes até sinto certo constrangimento por ter acreditado e difundido algumas inverdades. Eu me pergunto: por que confiei tanto em alguns professores que tive, quando fiz minha primeira faculdade?
Sei que espalhei muitas informações parecidas com a dos “astronautas” Declips, Decleps e Declei...
Só que no que tange aos supostos astronautas eu era uma criança! Ao longo dos quatro anos de faculdade eu tive todas as oportunidades para questionar (no bom sentido) as informações que vinham e que fui armazenando.
Como eu gostaria de poder voltar no tempo para dizer os verdadeiros nomes dos astronautas. Mas eu me perdôo (por isso) porque eu não passava de um moleque imberbe.
Mas, o que veio depois, seria perdoável? Qual a desculpa que tenho hoje por ter confiado tanto em antigos professores que por má-fé ou negligência, ensinaram-me teorias que sei, agora, não passam de malditos engodos?
Caro leitor: sinta-se livre para aprender um pouco com essa faceta de minha história. Caso tenha alguma chance de questionar faça-o já! É melhor ser tido como uma pessoa polêmica do que ser considerado (no futuro) como um ex-aluno omisso ou “ex-alguma-coisa” omissa...
Sei que ainda padecemos do ranço da ditadura militar que impediu o exercício do livre pensar. Nossos pais, em parte, são resultados disso e nós também. Quantas vezes fomos emparedados por eles (nossos pais) com frases obscuras, tentando fugir do assunto ou mesmo dizendo que estávamos especulando?
Talvez por isso eu me conceda um perdão parcial
Enéias Teles Borges
Postagem original: 09/04/2008
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Da Filosofia para a Religião?
Um pouco de filosofia leva a mente humana ao ateísmo, mas a profundidade da filosofia leva-a para a religião. (Francis Bacon)
Nota: Pensei bastante e me perguntei: neste caso o que seria religião?
Enéias Teles Borges
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Ensinando a usar a razão?
Num ponto os criacionistas e ateus concordam: o ser humano é racional e essa característica o diferencia dos demais seres vivos terrestres. Para o ateu o uso da razão é uma constante (o que mais lhe restaria, a não ser raciocinar?). E para os criacionistas?Entre os criacionistas existem aqueles que notadamente confundem “ensinar a usar a razão” com “condicionar comportamentos”. Já tratamos desses tópicos muitas vezes. A grande questão é que a herança contida no bojo dos pais e professores criacionistas tende a ser transmitida da mesma forma que foi recebida.
Já historiei um fato, ocorrido comigo, durante a faculdade de teologia em que um professor, não tendo argumentos para responder a uma pergunta simplesmente disse: “Assim aprendi, assim ensino...”.
Muitos pais e professores se julgam aptos para ensinar e não se dão conta de que simplesmente estão repassando adiante o que receberam e não questionaram. Estão com a “cabeça feita” e treinada para “fazer outras cabeças”.
O expediente, via frases padronizadas, é absurdo: “a especulação é o terreno encantado do diabo”, “quem pensa muito sofre demais”, “quem estuda demais começa a ter idéias bobas na cabeça”, “filosofia deixa as pessoas malucas”, “o aluno não tem competência para questionar professor” e por aí vai...
É fenomenal como as pessoas se julgam grandes educadoras, sem saber, pelo menos, a essência do que julgam estar ensinando. Algo como cego que se julga com visão telescópica...
Enéias Teles Borges
Postagem original: 13/01/2009
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domingo, 28 de novembro de 2010
Conhecimentos e crenças
“É muito difícil possuir conhecimentos e muito fácil adquirir crenças”. (Gustavo Le Bon).Alguém poderá dizer que é contra a complicação e adepto da simplificação. Essa mesma pessoa poderá afirmar que a beleza da crença está justamente em sua simplicidade, questionando quem procura se cercar de conhecimentos para fortalecer ou negar a mesma fé.
É natural que a massa opte pelo que é mais fácil, assim como é natural que o rio corra para o mar. Parece bem mais lógico. Mas no “campo” das idéias o que parece correto: optar pelo conhecimento ou pela crença? Podemos afirmar que tal crença, sem o efetivo conhecimento, tem valor? Podemos asseverar que partir do conhecimento para a crença é o caminho a ser trilhado?
A opção da maioria para o que é mais simples tem criado legiões imensas de prosélitos. Pessoas que crêem conforme a necessidade ou conveniência. O conhecimento pode trazer uma decepção. Há quem opte pela ilusão, para fugir do desapontamento. Há quem busque o conhecimento para que não tenha decepção. Há quem prefere o amargor da decepção ao doce amparo da ilusão.
Isso quer dizer que crença é ilusão? Não é bem assim. De igual modo não podemos dizer que crença é a verdade.
Como chegar à verdade ou aproximar dela? Ao que me parece o único caminho é aquele que conduz ao conhecimento.
Adquirir conhecimento é difícil. Requer quebra de preconceitos. Requer coragem. Requer rompimento com a tradição. Requer disposição para ser solitário. Requer reflexão. Requer força para suportar eventuais dores. Requer muito mais...
A crença é fácil. Basta querer acreditar. Basta não questionar o que é apresentado. Basta seguir o caminho apontado por outros. Basta apenas permitir que alguém conduza os passos. Bastam mais posturas de aceitação...
Adquirir conhecimento requer rompimento com a alienação? A crença faz da alienação uma arma poderosa?
No final pode acontecer uma grata surpresa: o palmilhar do conhecimento nos conduzir ao mesmo lugar no qual se encontra aquele que simplesmente optou por crer. Pode ser que não exista uma grata surpresa. Pode ser que haja, apenas, a verdade, nua e crua.
Quem, no fim, estará preparado para conviver com possível verdade desagradável: o que busca conhecimento ou aquele que se sustenta nessa crença?
No que tange à verdade não adianta fugir. “Se correr o bicho pega e se ficar o bicho come”. A verdade não faz pacto com as pessoas (nem com o crente) ela simplesmente é!
Enéias Teles Borges
Publicação original: 04/06/2008
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terça-feira, 23 de novembro de 2010
Ênfase: Filosofia e Sociologia
Filosofia e Sociologia: temas que não querem calar. As opiniões favoráveis são muitas e lamentavelmente existem alguns que anelam pela permanência da “cegueira” mental em nossa juventude. O artigo do professor Roberto Andersen nos encaminha para mais reflexões.Por que precisamos de Filosofia e Sociologia?
Sempre que ouço esta pergunta surge em mim, imediatamente, um sentimento de “pena” para com a pessoa que a profere. Um sentimento que, ao mesmo tempo, me leva a compreender os motivos pelos quais toda uma geração, para não incomodar o sistema dominador, foi impedida de ter acesso às únicas disciplinas capazes de bem desenvolver a capacidade de discernimento, entendimento e compreensão da vida e dos fatos: a Filosofia e a Sociologia.
O sistema as retirou, durante quase vinte anos, dos currículos escolares e perseguiu arduamente os que ainda tentavam, por meio de poesias, peças teatrais, músicas e artes, construir no adolescente e no jovem um pouco do necessário espírito da curiosidade positiva e do questionamento responsável, que são as únicas formas de permitir a criatividade e a evolução intelectual do gênero humano.
Durante todos esse anos calaram-se os jovens. Alguns foram calados “a pulso”... dando muito trabalho aos órgãos repressores, mas a maioria foi calada pelo forte e inteligente sistema de manipulação de massa, levando em consideração os ensinamentos de Maquiavel (O Príncipe) e do Padre Baltasar Gracián (A Arte da Prudência).
Se a filosofia ensina a pensar o mundo, a vida e os fatos de forma profundamente analisadora e questionadora, na procura das razões primeiras de tudo, a sociologia ensina a pensar o grupo social e as razões que os levam a tomar atitudes muitas vezes consideradas como irracionais.
Ambas fazem do Ser Humano mais do que um simples elemento no grupo, já que desenvolvem nele a habilidade necessária ao exercício da verdadeira cidadania, com competência não só para entender o mundo e os fatos, mas também para influenciar e participar ativamente das necessárias reconstruções sociais.
É, então, o correto aprendizado dessas duas disciplinas, que afasta o Ser Humano da alienação social, ou seja, impede sua fácil manipulação o que, infelizmente, ocorre com grande parte da humanidade. Essa manipulação está descrita, com bastante propriedade, nas obras citadas de Maquiavel e Gracián.
Aprender Filosofia é aprender a olhar o mundo e os fatos com mais cuidado e mais responsabilidade, procurando analisar os seus porquês. Aprender Sociologia é aprender a analisar o comportamento social com mais abrangência, procurando compreender as atitudes das pessoas e dos grupos para poder interferir no momento certo e da forma mais acertada, para alcançar os seus objetivos.
Embora as disciplinas estejam de volta o adolescente e o jovem ainda continuam alienados e sem a menor capacidade de exercer um bom questionamento produtivo ou uma verdadeira participação social, já que muitos professores e pais ainda não conseguiram entender a responsabilidade de sua tarefa.
A tarefa agora é dos pais e dos professores, inserindo nas aulas e nas conversas o ensinamento da neutralidade do pensamento, da análise racional e do entendimento da capacidade intuitiva e criativa de cada um, para que, aos poucos, o adolescente e o jovem possam vir a construir a sua identidade própria, evitando a alienação atual evidente nas cópias televisiva dos “Big Brothers, Malhações” e outros elementos “mediocrizadores” de nossa juventude.
Todos precisamos de muito esforço e dedicação para afastar os únicos modelos conhecidos durante o período das trevas, iniciado no governo Médici e com péssimas conseqüências sentidas até os dias de hoje, que eram os modelos ideais de incitação à acomodação social, como bem deseja qualquer sistema dominador mundial.
Mas para isso temos que incentivar aos professores para que saiam de um dos “nichos” de proteção, originários desses quase vinte anos de “pão e circo”.
O primeiro é o teórico total e analítico estreito, ou seja, aquele que sugere a seus alunos o envolvimento total com uma linha filosófica ou sociológica, e o ensina a escrever, falar, discursar, elaborar trabalhos, dissertações e teses obrigatoriamente enquadrados em um referencial teórico muito bem definido, sem qualquer ligação com a realidade do dia-a-dia.
O segundo é o teórico revoltado extremista, que não aceita opiniões discordantes das suas insatisfações para com o mundo, a vida e o sistema vigente, incapacitando, da mesma forma que o modelo anterior, qualquer desenvolvimento mental sadio e produtivo.
O caminho é simples e prático. Observe a criança, sua natural curiosidade e sua verdadeira criatividade. Embora ela, além de amor, precise de limites para o entendimento das regras sociais e o despertar do necessário instinto da conquista, ela não deveria ser tolhida em sua curiosidade nem em sua criatividade.
Se adotarmos esse modelo para nós mesmos, veremos que os limites são os éticos, que devemos estar sempre dispostos a adotar, mas curiosidade, exercício do questionamento, análise neutra dos fatos e criatividade devem ser incentivadas a cada instante, já que é a única forma de crescermos intelectual e emocionalmente e afastarmos o fantasma da mediocridade.
Esse é exatamente o modelo básico conseqüente do correto e eficaz estudo da Filosofia e da Sociologia.
Fonte: (professor Roberto Andersen)
Nota: quero enfatizar o tema nesse espaço que tenho na internet. De certa forma eu me julgo filho de um contexto no qual o livre pensar foi cerceado. Não me preocupo aqui em destacar minha opinião, fazendo juízo de valor, e sim em conclamar o povo brasileiro a exercer o nobre direito de pensar. O que precisa ser destacado: a Filosofia e a Sociologia são aliados de altíssima qualidade neste exercício.
Enéias Teles Borges
Postagem original: 05/06/2008
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quarta-feira, 27 de outubro de 2010
O que é filosofia?
O texto abaixo foi extraído do sítio http://www.filosofando.da.ru/ e eu recomendo a leitura do texto e a visita à excelente página.1. Filosofias
O uso normal e correto da Língua Portuguesa admite um sentido muito amplo para a palavra "filosofia". Fala-se, por exemplo, que fulano tem uma excelente "filosofia" de trabalho; a vovó tem uma "filosofia" de vida formidável; e até mesmo que determinado técnico de futebol vai imprimir uma nova "filosofia" ao time. Em todos esses casos, parece que "filosofia" tem a ver com uma concepção, e, pois com um "saber da direção" envolvido nessas filosofias. Mas fala-se também de filosofia hindu, de filosofia chinesa... E aqui parece que filosofia já tem um sentido mais técnico, de sistematização de pensamentos especulativos ou de reflexões morais produzidos pelo povo hindu ou pelo chinês. Como se não bastasse, as livrarias oferecem, sob a rubrica "filosofia", uma variedade bastante exótica, onde aparecem, entre outras produções, tratados de ioga, e disciplinas espirituais e ascéticas de monges tibetanos.
Em todos esses casos, e é o que deve unificar tantos usos diferentes da palavra, filosofia tem a ver com uma forma de saber - e que não é um saber qualquer: não é, por exemplo, um "saber fazer vestidos" por mais úteis e até mesmo indispensáveis que sejam todos esses tipos de saber. "Filosofia" tem o mesmo no seu sentido lato, uma ligação com um saber que se percebe como sendo mais relevante, relativo a coisas mais fundamentais, embora menos diretamente úteis, que um simples saber empírico, ou que um saber ligado a produções de coisas indispensáveis para a sobrevivência. Não é, pois, meramente arbitrário o uso da palavra "filosofia" em todos os casos citados acima.
Mas é preciso estar ciente de que a disciplina acadêmica que se intitula "filosofia" usa essa palavra num sentido estrito, que exclui de seu âmbito não só a concepção de vida da vovó e as disciplinas ascéticas dos monges tibetanos, mas também - e esta afirmação talvez seja um tanto polêmica - textos às vezes altamente especulativos das milenares civilizações chinesa e hindu. Mas não há nenhum julgamento depreciativo por parte de quem nega ao pensamento hindu ou chinês o nome de filosofia. Quer-se simplesmente dizer que eles são diferentes, têm outros pressupostos, metas outras que a filosofia propriamente dita.
2. Filosofia
Filosofia é uma palavra de origem grega (philos = amigo; Sophia = sabedoria) e em seu sentido estrito designa um tipo de especulação que se originou e atingiu o apogeu entre os antigos gregos, e que teve continuidade com os povos culturalmente dominados por eles: grosso modo, os povos ocidentais. É claro que, atualmente, nada impede que em a qualquer parte do mundo se possa fazer especulação "à moda grega", isto é, filosofia.
Mas, se afirmamos que esse tipo de especulação é diferente, que tem características próprias, quais são estas, afinal? Que é afinal, filosofia? Bem... Se perguntarmos a dez físicos "o que é filosofia", eles responderão, provavelmente, de maneira parecida. O mesmo se passará, provavelmente, se perguntássemos a dez químicos "o que é química". Mas se perguntarmos a dez filósofos "o que é filosofia", ouso dizer que três ficarão em silêncio, três darão respostas pela tangente, e as respostas dos outros quatro vão ser tão desencontradas que só mesmo outro filósofo para entender que o silêncio de uns e as respostas dos outros são todas abordagens possíveis à questão proposta.
Para quem ainda está fora da filosofia, a coisa pode estar parecendo confusa. Mas a razão da dificuldade é fácil de se explicar: talvez seja possível dizer e entender o que é a física, de fora da física; e dizer o que é a química, de fora da química. Mas, para dizer e entender o que é a filosofia, é preciso estar dentro dela. "O que é a física" não é uma questão física, "o que é a química" não é uma questão química, mas "o que é filosofia" já é uma questão filosófica - e talvez uma das características da questão filosóficas que seja o fato de suas respostas, ou tentativas de resposta, jamais esgotarem a questão, que permanece assim com sua força de questão, a convidar outras pessoas e outras abordagens possíveis.
Para Aristóteles, o saber filosófico
A. é um saber "de todas as coisas", um saber universal; num certo sentido, nada está fora do campo da filosofia
B. é um saber pelo saber; um saber livre, e não um saber que se constitui para resolver uma dificuldade de ordem prática
C. é um saber pelas causas; o que Aristóteles entende por causa não é exatamente o que nós chamamos por esse nome; de qualquer forma, sabe pelas causas envolve o exercício da razão, e esta envolve a crítica: o saber filosófico é, pois, um saber crítico.
3. Origem Da Filosofia
Platão e Aristóteles indicaram com precisão a experiência que, segundo eles, dá origem ao pensar filosófico. É aquilo que os gregos chamaram "thauma" (espanto, admiração, perplexidade). A Filosofia, pois, começa quando algo desperta nossa admiração, espanta-nos, capta nossa atenção (que é isso? Por que é assim? Como é possível que seja assim?), interroga-nos insistentemente, exige uma explicação.
Espantar-se diante das coisas, interrogá-las, é próprio da condição humana. Qualquer cultura, por mais primitiva que seja, tem, desde sempre, seu arsenal de respostas e explicações às questões que normalmente são postas. No caso de questões originárias como surgiu o mundo. Como surgiu aquele determinado povo, de onde vem a chuva ou o trovão ou o fogo, como foram induzidas as técnicas ou as regras sociais é comum que as respostas estejam contidas em mitos. E se, por um lado, é normal ao ser humano espantar-se, interrogar, é por outro lado normal que não se espante nem se interrogue muito. Sendo a maioria das pessoas pouco exigente, as explicações dados pelo mito, ou quaisquer outras explicações prontas de uma cultura, bastam para quebrar o espanto nascente e, assim sendo, a filosofia não acontece. Aliás, é comum também que as questões mais fundamentais não cheguem a ser postas - um ser humano pode crescer, assimilando com naturalidade as explicações dadas pela sua cultura sobre o mundo que o circunda, quer se trate do mundo físico, quer do social. As regras de conduta, o sistema de organização social e muitas vezes não chegam a espantar ninguém. As pessoas crescem aceitando sem discutir os papéis sociais que lhes são atribuídos, sem jamais questionar seu valor e seu porque, como se tudo fosse parte da ordem natural e inacessível das coisas. Ora, a filosofia grega parece ter surgido quando, por uma série de fatores complexos, que não podemos aqui desenvolver, as respostas dadas pelo mito a certas questões não satisfizeram mais a certas mentes particularmente exigentes de um povo particularmente curioso e passível de se espantar - e as questões continuaram assim, com sua força de questão e de espanto, a exigir uma resposta que fosse além das convencionais.
4. Por que Filosofia?
Uma das coisas que mais chamam a atenção, quando se examina o fenômeno filosófico da Grécia, é a rapidez com que a filosofia atingiu sua plena maturidade. Entre Tales e Platão, a distância é de apenas 2 séculos! É claro que isso dependeu da feliz coincidência de vários fatores, entre os quais o aparecimento de alguns gênios excepcionais. Mas também a própria maneira de ser da especulação filosófica determinou esse desenvolvimento meteórico. A explicação pelo mito, ou pela tradição, tem a força do sagrado. Quando muito fala, é como se Deus falasse - e com Deus não se discute. Mas quando, numa sociedade laicaizada como foi à grega do século VI a.C., onde não só o mito já está desacreditado, mas onde se pode dar o luxo de não levar o mito a sério, os sábios começam a dar explicações filosóficas sobre fenômenos naturais, estas não têm de modo algum a força do sagrado. A explicação filosófica é apenas a explicação de um homem. E, sem o endosso divino, ela não pode impor-se sem uma prova. Ora, ao contrário da matemática, que, ao lado da filosofia, desenvolveu-se rapidamente nessa época, a filosofia não conseguia produzir suas provas. E assim a resposta de um filósofo só fazia convidar outro a apresentar sua resposta à questão. Isso parece ter provocado uma reação em cadeia, e o questionamento filosófico caminhou rapidamente, como continua caminhando até hoje, porque não tem fim. Desde os tempos gregos, muitas das questões que nasceram "filosóficas" já deixaram de o ser - pois foram resolvidas, perdendo sua força de espanto. Mas, em compensação, outras questões são suscitadas, em número infinito.
E agora talvez caiba uma pergunta: quais as conseqüências disso tudo? Bem... Entre os dez filósofos a quem mais acima propúnhamos a questão "o que é filosofia", talvez houvesse um engraçadinho que responderia com uma definição célebre e jocosa, que rola por aí sobre a filosofia: "é una scienza colla quale o senza la quale il mondo diventa tale e quale".
Num certo sentido, esse engraçadinho tem razão. Filosofia é saber pelo saber. Não sendo, pois, dirigida a nenhuma solução de ordem prática, ela é, num certo sentido, o mais inútil de todos os saberes. E cabe de novo perguntar: mas então... Pra que fazer isso? Bem... Quando se examina a história das civilizações, até um passado muito recente, um aspecto que chama a atenção é o dinamismo das sociedades ocidentais, em comparação com as orientais. A civilização ocidental não só elaborou as teorias no campo da biologia, da psicologia, da política, da economia, etc. que revolucionaram a visão tradicional sobre os homens e suas instituições. Com seus méritos e deméritos, vantagens e desvantagens, todo esse dinamismo tem a ver com o tipo de pensamento desenvolvido no ocidente, isto é, como a filosofia.
Ora, uma das belezas que nos revela a analise etimológica da palavra Filosofia é a modéstia com que o filósofo se apresenta: ele não é um sábio, ele é "amante da sabedoria". A Filosofia não é tanto um saber como a atividade: a busca, a do cultivo do saber. O primeiro espanto talvez tenha sido involuntário; mas, depois que se torna "amante da sabedoria", o filósofo torna-se amante do próprio espanto, que é a experiência que o jogo na atividade da busca do saber, que é o objeto do seu amor. O filósofo é alguém que sabe manter viva a capacidade de se espantar. Lá mesmo, onde todo mundo está instalado, dentro do óbvio mais ululante, o filósofo é aquele que chega e, com toda a espécie de perguntas engraçadas, dá uma sacudida e faz a ver que nada é óbvio, e que tudo no mundo é realmente pasmar! Nada escapa a seu questionamento: nem Deus, nem o homem e suas instituições, nem as ciências, seus métodos e seus resultados, nem os resultados do questionamento filosófico, nem o próprio direito do filósofo de questionar. Filosofia é "saber de todas as coisas" e é saber crítico. Nem ela própria pode escapar ao seu questionamento e à sua crítica.
Ora, numa sociedade em que as explicações estão todas prontas, onde as normas são aceitas sem discussão, a tendência é estagnar. As alterações, inevitáveis em qualquer comunidade humana, ficam por conta de fatores externos: mudanças climáticas, cataclismas, guerras, invasões... Mas lá onde há questionamento de tudo existe um principio interno de transformação, e existe a permanente possibilidade de mudança.
É por isso que, entre os nossos dez filósofos, um certamente se insurgiria contra seu colega engraçadinho e bradaria indignado: "Alto lá! A Filosofia é o contrário disso, ela é justamente a ciência com a qual não é possível ao mundo permanecer tal e qual!".
E é só entrar na Filosofia para entender que ele também tem razão.
Fonte: (filosofando).
Enéias Teles Borges - Editor
Postagem original: 21/11/2008
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sábado, 16 de outubro de 2010
Abençoado ou uma bênção?
Existia um homem muito inteligente e rico. Tinha uma mulher honrada e um filho. Ele era muito firme nos empreendimentos. Agressivo! Não misturava negócios com amizade. Para ele valia o que era contratado. Não havia desonestidade, mas a piedade não fazia parte do seu universo de mercantilismo.
Quantas negociações ele fez na vida? Muitas. Em quantas perdeu dinheiro? Nenhuma. Quantas pessoas perderam algo, muito ou tudo? Diversas. Ele era rigoroso e não sentia dó dos seus pares.
À noite reunia a família e agradecia a Deus. Sempre teve motivos para agradecer. Sabia que pessoas estavam chorando enquanto ele estava orando. Rezando e agradecendo. Agradecendo e sorrindo.
Toda noite, antes de dormir dizia para a sua esposa: “somos abençoados”!
Sua companheira era diferente. Era grata, correta e tinha piedade na alma. Não conseguia sorrir vendo outros chorando. Não conseguia reunir forças para agradecer sabendo que lares estavam estraçalhados. Sabia que a alegria no seu lar muitas vezes representava a amargura em outras residências.
Numa noite em que seu marido repetiu a frase “somos abençoados” ela, finalmente, replicou: “de que adianta sermos abençoados se não somos uma bênção?”
É possível conciliar a felicidade de alguém com a infelicidade do outro, quando o objeto da alegria e tristeza é o mesmo?
Seria possível, entre pessoas justas e envolvidas no mesmo objetivo, algumas se sentirem abençoadas ao passo que as outras não? A distribuição do bem-estar supõe, nesse caso, a mesma proporção do mal-estar?
Pois é...
Quantas vezes eu ouvi pessoas agradecerem pelas bênçãos e vi outras pessoas sofrendo em função daquelas bênçãos “atribuídas” aos “abençoados”?
O que penso, às vezes, sobre isso? Muita coisa. O que de fato faço? Apenas observo e escuto. Busco coerência entre essas ações humanas. Procuro um traço de racionalidade nisso. Não vejo.
É inaceitável imaginar um abençoado sem a preocupação em ser uma bênção. O que é mais complicado, porém, é ver a que ponto nós chegamos. O de vivermos num mundo hermeticamente fechado e que nos impede de enxergar o abismo que está adiante.
A vida sem utilidade para os outros é de futilidade imensa. Maior do que esse abismo aí na frente, atrás, dos lados, embaixo (...) e até acima de nós. Abismo acima? Sim. Alguns até o chamam de céu...
Enéias Teles Borges
Postagem original: 14 de março de 2008
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Fanatismo religioso na História
Marcos Lopes e Marcos Lobato retomam o tema do fanatismo e numa perspectiva histórica constroem de maneira ensaística e até literária uma narrativa sobre as práticas de fanatismo, de movimentos e seitas religiosas ao longo dos séculos XVI, XVII, XVIII, XIX, XX e início do XXI, em várias partes do mundo.É preciso dizer que o fenômeno do fanatismo, em todas as épocas esteve imbricado em processos políticos, econômicos e sociais, buscando um espaço estratégico para sedimentar o fervor religioso.
Nesse enfoque, as tradições e as práticas religiosas são componentes do chamado fundamentalismo que caracteriza o fenômeno do fanatismo nos dias atuais. Não é por outra razão que os autores afirmam que o fanatismo religioso (do passado e do presente) é denominado de “choque de civilização” ou “choque de religiões”. O fanatismo caracteriza-se pelo “excesso de zelo na defesa de certos ideais religiosos dando margem para alguns assombrosos banhos de sangue ao longo da História”, afirmam Lopes e Lobato (p. 10).
O trabalho está dividido em três eixos temáticos, partindo do tema fanatismo. Na primeira parte o fanatismo religioso é tratado enquanto manifestações históricas ocorridas no Ocidente e Oriente, em diferentes contextos ao longo da Idade Média no tempo das Cruzadas Cristãs, na época da Inquisição e da Caça às Bruxas nos séculos XVI e XVII.
Na segunda parte são analisadas as práticas de fanatismo mais recentes no século XX, como é o caso da seita chamada Nova Era e dos grupos terroristas com ações no plano internacional, praticadas por grupos religiosos armados, identificados como sendo movimentos fundamentalistas islâmicos
Os autores desenvolvem uma narrativa muito bem articulada a partir de diferentes fontes, como as obras literárias de Swift, Yates, Dumas, Cervantes e Calvino, além dos discursos filosóficos de Voltaire, Roterdã, Montesquieu e Diderot. Dessa interconexão discursiva da filosofia com a literatura surge uma perspectiva de analise que envolve a ironia, a sátira e principalmente a alegoria enquanto categorias para uma compreensão crítica do fenômeno do fanatismo na Idade Média, na Época Moderna até os dias atuais. Esse é o fio condutor que os autores competentemente adotaram para uma abordagem histórica inovadora. Nota-se que a opção de fontes centradas nos clássicos foi bem acertada, pois são obras cujas interpretações em torno da história do fanatismo permitem uma multiplicidade de sentidos. Aliás, não é outra coisa que dizem os autores: “[...] um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tenha para dizer” (p. 32)
A parte historiográfica e teórica do tema fanatismo apresenta como suporte para a analise e reflexão, pesquisadores especializados no assunto, como Le Goff, Ginzburg, Febvre, Le Roy Ladurie, Delemeau, Mandrou, Gellmer, Michelet e Massoulié. Lopes e Lobato analisam as diferentes formas de fanatismo praticados por seitas religiosas e movimentos derivados das heresias e cismas no ocidente. Essas práticas e idéias foram combatidas também de modo violento e fanático pelas Cruzadas Cristãs da Baixa Idade Média e pela Inquisição. As perseguições se estenderam ainda ao longo da Época Moderna nos séculos XVI e XVII. É nesse período da História que apareceram os primeiros críticos do fanatismo religioso, como os filósofos Montaigne, Montesquieu, Voltaire, Hume e Diderot, além de escritores como Jonathan Swift e Cervantes (p. 15). Montesquieu, por exemplo, criticava os padres fanáticos de diferentes ordens religiosas por acreditarem na superioridade de suas seitas e no monopólio das “verdades divinas”. Enfim, finalizam os autores, os filósofos iluministas combateram toda forma de fanatismo e as guerras de religiões, como aquelas ocorridas na França entre católicos e protestantes. Voltaire criticou, ostensivamente, os perseguidores de bruxas e das práticas de bruxaria, pois acreditavam ainda na sua existência real
Os autores incursionam também na perspectiva da história cultural, valorizando abordagens e métodos de investigação da história do comportamento de homens comuns, começando pelas variações das diferentes culturas marcadas por manifestações folclóricas e pagãs do século XVI, como é o caso da análise feita pelo historiador Carlo Ginzburg.
Lopes e Lobato aprofundaram suas reflexões em torno do embate do catolicismo com o protestantismo após as Reformas de Lutero, marcando os grandes conflitos entre os reformistas franceses e os Estado com sua Justiça unilateral e violenta na condenação dos acusados tendo à frente uma maioria de juizes ligados ao rei católico francês. Milhares de pessoas foram condenadas por Tribunais católicos sob a alegação de que defendiam a França e a monarquia. Era uma maneira muito estranha de se fazer justiça pela simples e única liberdade que de fato não existia.
Os autores também enfocam a ausência de tolerância por parte dos movimentos religiosos – aliás uma característica efetiva de uma época de muita violência e fanatismo religioso. Para tratar dessa questão, os autores investigam as obras de Erasmo de Roterdã e Montaigne onde há uma filosofia e crítica à intolerância religiosa.
Uma interessante perspectiva de análise que os autores desenvolvem sobre o fanatismo religioso, neste livro, diz respeito ao uso do filme como fonte histórica sobre esse tema. Para isso, analisaram o filme A Rainha Margot, que foi inspirado no romance de Alexandre Dumas. Nesse filme, o problema da intolerância é tratado com rigor histórico, exemplificado pelo conflito entre os hunguenotes e os católicos franceses nos anos de 1572 e 1574. Outro filme analisado, Giordano Bruno, mostra todo o processo de emergência do fanatismo religioso contra os homens de ciências e os saberes humanos.
A violência não é apenas uma prática de julgamento, mas a própria negação da idéia de Justiça. Como muito bem assinalam os autores: “A banalização da violência é um traço muito evidente. O indivíduo se deixa arrastar pelo impulso de paixões que revelam aspectos contrastantes de sua personalidade: ele oscila entre a cortesia e a brutalidade, a constrição” (p. 45).
Os autores ressaltam a importância da contribuição de Voltaire quanto a análise e compreensão das práticas nos suplícios públicos e nos movimentos coletivos que marcaram as varias formas de fanatismo.
Um tema instigante que Lopes e Lobato tratam neste livro diz respeito ao fenômeno da bruxaria que durou do século XV até a primeira metade do século XVIII. Ao analisarem a bruxaria os autores arrolaram uma série de práticas das autoridades eclesiásticas e leigas de repressão e controle das bruxas. Por exemplo, o crime da lesa majestade, curandeirismo e outras práticas de bruxarias geralmente eram motivos de condenação à fogueira. Os sabás, as magias e outros rituais coletivos, praticados na calada da noite, eram execrados pela Igreja e pelos Tribunais. Os autores lembram, porem, que a caça às bruxas deve ser compreendida no contexto do Antigo Regime, uma época de violenta repressão política e social.
O curioso é que geralmente as mulheres é que estavam à frente das práticas de magias, misticismos e bruxarias. Mas o Estado Absolutista não descuidou de tais práticas e logo inventou uma série de leis repressivas para combater toda forma de bruxaria. Enfim, cabia ao Estado e à Igreja a manutenção da ordem e do controle social através de seus aparelhos repressivos.
Na última parte do livro, Lopes e Lobato estudam as seitas e os fanatismos religiosos do século XIX e XX. São grupos radicais com regras e códigos de tipo militar voltados para a prática da violência, caracterizados por intolerância e racismo. Tais grupos surgiram após as reformas protestantes na Inglaterra, Irlanda do Norte, França e também nos EUA. No século XX muitos desses movimentos tornaram-se fundamentalistas, notadamente os de origem protestante. O fundamentalismo como corrente religiosa surgiu também na África, em países como Nigéria, Argélia e Egito. No Oriente Médio, grupos fundamentalistas foram organizados com base na religião muçulmana e em países como o Líbano, Palestina, Irã, Iraque, Arábia Saudita, Paquistão e Afeganistão.
Alguns grupos radicais religiosos fundamentalistas vão assumindo cada vez mais uma postura fanática e terroristas como são os grupos Al Qaeda, Jilhad islâmica, Hezbollah e os Sikhis na Índia.
Finalmente, os autores interrogam sobre o futuro do fanatismo. Haveria algum futuro? Será o fim do fanatismo religioso nos próximos vinte anos? Na visão de Lopes e Lobato nada indica alteração nas práticas dos grupos e dos movimentos fanáticos no mundo hoje globalizado. Os conflitos étnicos, raciais e migratórios estão potencializados pela globalização – concluem os autores – e, por certo, continuarão produzindo atos de violência e de intolerância. Triste conjuntura emergente neste início de século.
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Fonte: [Revista Espaço Acadêmico]
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Postagem original: 24/05/2008.
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sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Hugo Grócio e o Direito Natural
O texto abaixo, de minha autoria, foi para cumprimento de obrigação acadêmica. Mestrado de Filosofia na Universidade São Judas Tadeu. Créditos cumpridos, monografia não apresentada. Uso livre, desde que a fonte seja indicada.
Hugo Grócio e Direito Natural
I. Introdução
Hugo Grócio nasceu na Holanda, na cidade de Delft, em 1583 e teve, no berço, uma formação religiosa de influência familiar (na forma de um cristianismo mistificado), pois o pai era protestante e a mãe católica. Já em 1607, exercendo a profissão de advogado, em Haia, sede do governo do holandês, começou a se interessar pelas questões do Direito.
Convém salientar que o ambiente (cidade) no qual Grócio nasceu e foi criado era eminente na Holanda, isto é, a cidade predominava em relação ao ambiente rural (feudal). Como os comerciantes tinham um sistema administrativo e judiciário que funcionava de forma autônoma, em relação aos senhores feudais, há que se notar uma transformação importante: uma estruturação comunitária de formato corporativo que possibilitava alianças com outros organismos similares.
Esta forma de autonomia evoluiu ao ponto de se aproximar, com o correr dos anos, no conceito atual de soberania.
Com a sua formação, solidificada neste contexto, Hugo Grócio fez refletir em sua teoria do Direito Natural esse desejo de autonomia.
Esta doutrina do Direito Natural se manifesta, inicialmente, em relação ao pensamento teocrático predominante, à época. Para o célebre pensador, Deus não era mais o referencial do Direito e sim a natureza do homem e das coisas. O Direito Natural torna seus ditames imutáveis, independentemente da existência ou não do Ser Superior.
Ele assevera: “O direito natural é tão imutável que não pode ser mudado nem pelo próprio Deus”. (...) E mais: “Do mesmo modo, portanto, que Deus não poderia fazer com que dois mais dois não fossem quatro, de igual modo ele não pode impedir que aquilo que é essencialmente mau não seja mau”.[1]
Conclui-se, inicialmente, que são: o método dedutivo e a influência do raciocínio matemático e geométrico, que possibilitam à reta razão alcançar as regras invariáveis da natureza humana.
Assim é que à luz deste entendimento, concernente ao Direito Natural, é possível legitimar a paz, na busca pela harmonia social. É possível, também, condenar ou justificar a guerra, qualificando-a de justa ou de injusta.
É nosso objetivo, neste artigo, analisar pontos do pensamento de Hugo Grócio, quando trata da Guerra e da Paz. E ao final entender a forma como ele condena ou justifica a Guerra.
II. A Guerra e a Paz
Quando trata da Guerra, Grócio também se imiscui no assunto da paz. É natural que assim observemos, pois fica transparente ao leitor atento, que o filósofo sugere qual deva ser a meta principal da guerra: “Como, porém, a guerra é empreendida em prol da paz e como não há nenhuma contenda da qual não possa decorrer uma guerra, não será fora de propósito, no âmbito do direito da guerra, tratar de todas essas espécies de debates que surgem habitualmente. A própria guerra nos levará à paz como a seu último fim”.[2]
Uma leitura meramente superficial poderá sugerir uma contradição: a guerra sempre é tida como oposição à paz. Afirmar que a guerra busca um fim e que este objetivo é a paz, parece um contra senso.
É claro que Hugo Grócio contextua seu pensamento, à luz do que entende ser a natureza humana.
Os homens, dentro de um ambiente de relacionamento, sempre terão controvérsias a resolver e Grócio demonstrou que a guerra (pública ou privada) é um estado, do qual os indivíduos se servem, para sanar as contendas.
Existem premissas que precisamos considerar neste artigo. E que são preciosas, para compreensão do ideário do filósofo:
A primeira delas diz respeito ao objeto da guerra: que é a paz. E quando assim assevera Grócio invoca os princípios naturais primitivos. Deixa claro que não existe um só princípio natural que conspire contra a guerra.
É óbvio supor que a paz, no caso em tela, diz respeito à preservação da vida, conservação do corpo e a obtenção de utilidades práticas à existência.
De sorte que, para defender essas garantias naturais, a guerra é plenamente justificável.
Não é diferente quando o mesmo tema é considerado dentro de um contexto social, pois, em sua obra, o filósofo pondera que a sociedade deve primar para que as pessoas se mantenham apenas naquilo pertencente a elas. Afinal a vida, o corpo e a liberdade são bens indisponíveis e atentar contra eles seria prática injusta.
É mister observar por este aspecto porque a conclusão é lógica: se todos ficassem adstritos às suas prerrogativas, não haveria guerra.
Não havendo respeito, aos direitos alheios, a guerra se tornaria justificável e revestida de um único propósito: a obtenção do status anterior a ela (guerra), ou seja, todos se limitando apenas aos seus direitos que lhes estariam circunscritos.
Como se conclui, o pensamento de Hugo Grócio não é o de insuflação à guerra, como um fim. É, primordialmente, o meio viável de busca pela paz.
Outra premissa essencial é aquela que se concentra na contenda. O eminente pensador é objetivo e preciso ao afirmar que não existe contenda que possa ser resolvida sem a guerra.
Na realidade há que se considerar a existência de outra possibilidade, para se resolver uma controvérsia: a força do diálogo ou da argumentação.
Em se resolvendo desta forma, a controvérsia não se instalaria. Quando Grócio se prende ao uso da força é num estágio em que o diálogo não mais seria possível. A controvérsia já estaria implementada.
Quando as pessoas passam a zelar pelos próprios interesses sem interferir nos interesses dos semelhantes, o fazem no exercício de um direito e, logo, não estão agindo contra a natureza.
O fato é que o zelo pelo direito, num contexto em que não há diálogo, gera uma controvérsia e tal contenda fatalmente promoverá a guerra.
Desta forma, Grócio vincula a necessidade de se buscar a paz, pelo exercício da guerra, posto que, somente desta forma seria possível resolver a controvérsia.
A última premissa sugerida pelo filósofo é seqüencial, complementando as duas anteriores: a mesma guerra que ocorre em função da paz e foi provocada pela controvérsia, reconduz à paz, pois este é o seu escopo.
A paz é obtida, ao final, quando uma das partes é vencida ou reconhece ser a outra detentora do direito em litígio.
Este resultado legitima os resultados da guerra, pois esta teria ocorrido dentro dos requisitos inerentes à natureza humana.
A promoção da guerra para manutenção do direito de um ou da coletividade é um direito natural.
O nascedouro desta guerra é a controvérsia e esta é oriunda do desrespeito ao direito do semelhante.
A mesma guerra alcançará, finalmente, o seu fito. O retorno à paz. E nesta concepção é notória a coerência do pensamento de Grócio.
III. Conclusão
Hugo Grócio considerou fundamental ponderar acerca da possibilidade da existência, ou não, de uma guerra justa. Vai além ao propugnar que seria de vital importância (caso se conclua que determinada guerra seja considerada justa) o que, efetivamente, existiria de justo, nesta guerra.
Para definir o justo, parte para a análise objetiva do injusto e o faz da seguinte forma: “Ora, é injusto o que repugna à natureza da sociedade dos seres dotados de razão”.[3]
Cita, inclusive, Cícero, e corrobora com o pensamento dele, quando sugere ser contra a natureza, despojar o outro em vista de proveito próprio.
A conclusão, à qual se chega, é que o fator determinante e definidor do caráter justo ou injusto de uma guerra, é a mensuração do objetivo dela (guerra).
Desta forma podemos afirmar que agir de forma contrária à natureza seria promover uma guerra injusta. Preservar o que é direito, após, instalada a controvérsia, naturalmente seria uma guerra justa.
É importante ver a promoção de uma guerra por este ponto de vista. A justeza de uma guerra não está nela mesma, mas em sua motivação.
Caso determinados componentes da sociedade humana viessem a se enveredar por um caminho, de usurpação do que pertence a outros elementos desta mesma sociedade, a comunidade em questão não subsistiria.
Qual é o meio de evitar esta tragédia? Agir em conformidade com a natureza.
Como seria possível, aos seres dotados de razão, proceder de acordo com a natureza, num contexto em que outros elementos não agem desta maneira? Promovendo uma guerra (justa), que ao final trará a paz.
Fica patente que obedecidos os critérios da reta razão, é possível a existência de uma guerra justa. Afinal ela tem por objetivo precípuo a busca e manutenção da paz e conseqüentemente da preservação da vida e de seus acessórios, que se seguem a este dom principal (vida).
IV. Bibliografia
GROTIUS, Hugo. O Direito da Guerra e da Paz. Ijuí: Unijuí, 2004.
[1] Extraído do livro “O Direito da Guerra e da Paz” de Hugo Grotius, página 81.
[2] Idem, página 71.
[3] Idem, Idem: página 73.
Publicação original: 20/12/2007
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Hugo Grócio e Direito Natural
I. Introdução
Hugo Grócio nasceu na Holanda, na cidade de Delft, em 1583 e teve, no berço, uma formação religiosa de influência familiar (na forma de um cristianismo mistificado), pois o pai era protestante e a mãe católica. Já em 1607, exercendo a profissão de advogado, em Haia, sede do governo do holandês, começou a se interessar pelas questões do Direito.
Convém salientar que o ambiente (cidade) no qual Grócio nasceu e foi criado era eminente na Holanda, isto é, a cidade predominava em relação ao ambiente rural (feudal). Como os comerciantes tinham um sistema administrativo e judiciário que funcionava de forma autônoma, em relação aos senhores feudais, há que se notar uma transformação importante: uma estruturação comunitária de formato corporativo que possibilitava alianças com outros organismos similares.
Esta forma de autonomia evoluiu ao ponto de se aproximar, com o correr dos anos, no conceito atual de soberania.
Com a sua formação, solidificada neste contexto, Hugo Grócio fez refletir em sua teoria do Direito Natural esse desejo de autonomia.
Esta doutrina do Direito Natural se manifesta, inicialmente, em relação ao pensamento teocrático predominante, à época. Para o célebre pensador, Deus não era mais o referencial do Direito e sim a natureza do homem e das coisas. O Direito Natural torna seus ditames imutáveis, independentemente da existência ou não do Ser Superior.
Ele assevera: “O direito natural é tão imutável que não pode ser mudado nem pelo próprio Deus”. (...) E mais: “Do mesmo modo, portanto, que Deus não poderia fazer com que dois mais dois não fossem quatro, de igual modo ele não pode impedir que aquilo que é essencialmente mau não seja mau”.[1]
Conclui-se, inicialmente, que são: o método dedutivo e a influência do raciocínio matemático e geométrico, que possibilitam à reta razão alcançar as regras invariáveis da natureza humana.
Assim é que à luz deste entendimento, concernente ao Direito Natural, é possível legitimar a paz, na busca pela harmonia social. É possível, também, condenar ou justificar a guerra, qualificando-a de justa ou de injusta.
É nosso objetivo, neste artigo, analisar pontos do pensamento de Hugo Grócio, quando trata da Guerra e da Paz. E ao final entender a forma como ele condena ou justifica a Guerra.
II. A Guerra e a Paz
Quando trata da Guerra, Grócio também se imiscui no assunto da paz. É natural que assim observemos, pois fica transparente ao leitor atento, que o filósofo sugere qual deva ser a meta principal da guerra: “Como, porém, a guerra é empreendida em prol da paz e como não há nenhuma contenda da qual não possa decorrer uma guerra, não será fora de propósito, no âmbito do direito da guerra, tratar de todas essas espécies de debates que surgem habitualmente. A própria guerra nos levará à paz como a seu último fim”.[2]
Uma leitura meramente superficial poderá sugerir uma contradição: a guerra sempre é tida como oposição à paz. Afirmar que a guerra busca um fim e que este objetivo é a paz, parece um contra senso.
É claro que Hugo Grócio contextua seu pensamento, à luz do que entende ser a natureza humana.
Os homens, dentro de um ambiente de relacionamento, sempre terão controvérsias a resolver e Grócio demonstrou que a guerra (pública ou privada) é um estado, do qual os indivíduos se servem, para sanar as contendas.
Existem premissas que precisamos considerar neste artigo. E que são preciosas, para compreensão do ideário do filósofo:
A primeira delas diz respeito ao objeto da guerra: que é a paz. E quando assim assevera Grócio invoca os princípios naturais primitivos. Deixa claro que não existe um só princípio natural que conspire contra a guerra.
É óbvio supor que a paz, no caso em tela, diz respeito à preservação da vida, conservação do corpo e a obtenção de utilidades práticas à existência.
De sorte que, para defender essas garantias naturais, a guerra é plenamente justificável.
Não é diferente quando o mesmo tema é considerado dentro de um contexto social, pois, em sua obra, o filósofo pondera que a sociedade deve primar para que as pessoas se mantenham apenas naquilo pertencente a elas. Afinal a vida, o corpo e a liberdade são bens indisponíveis e atentar contra eles seria prática injusta.
É mister observar por este aspecto porque a conclusão é lógica: se todos ficassem adstritos às suas prerrogativas, não haveria guerra.
Não havendo respeito, aos direitos alheios, a guerra se tornaria justificável e revestida de um único propósito: a obtenção do status anterior a ela (guerra), ou seja, todos se limitando apenas aos seus direitos que lhes estariam circunscritos.
Como se conclui, o pensamento de Hugo Grócio não é o de insuflação à guerra, como um fim. É, primordialmente, o meio viável de busca pela paz.
Outra premissa essencial é aquela que se concentra na contenda. O eminente pensador é objetivo e preciso ao afirmar que não existe contenda que possa ser resolvida sem a guerra.
Na realidade há que se considerar a existência de outra possibilidade, para se resolver uma controvérsia: a força do diálogo ou da argumentação.
Em se resolvendo desta forma, a controvérsia não se instalaria. Quando Grócio se prende ao uso da força é num estágio em que o diálogo não mais seria possível. A controvérsia já estaria implementada.
Quando as pessoas passam a zelar pelos próprios interesses sem interferir nos interesses dos semelhantes, o fazem no exercício de um direito e, logo, não estão agindo contra a natureza.
O fato é que o zelo pelo direito, num contexto em que não há diálogo, gera uma controvérsia e tal contenda fatalmente promoverá a guerra.
Desta forma, Grócio vincula a necessidade de se buscar a paz, pelo exercício da guerra, posto que, somente desta forma seria possível resolver a controvérsia.
A última premissa sugerida pelo filósofo é seqüencial, complementando as duas anteriores: a mesma guerra que ocorre em função da paz e foi provocada pela controvérsia, reconduz à paz, pois este é o seu escopo.
A paz é obtida, ao final, quando uma das partes é vencida ou reconhece ser a outra detentora do direito em litígio.
Este resultado legitima os resultados da guerra, pois esta teria ocorrido dentro dos requisitos inerentes à natureza humana.
A promoção da guerra para manutenção do direito de um ou da coletividade é um direito natural.
O nascedouro desta guerra é a controvérsia e esta é oriunda do desrespeito ao direito do semelhante.
A mesma guerra alcançará, finalmente, o seu fito. O retorno à paz. E nesta concepção é notória a coerência do pensamento de Grócio.
III. Conclusão
Hugo Grócio considerou fundamental ponderar acerca da possibilidade da existência, ou não, de uma guerra justa. Vai além ao propugnar que seria de vital importância (caso se conclua que determinada guerra seja considerada justa) o que, efetivamente, existiria de justo, nesta guerra.
Para definir o justo, parte para a análise objetiva do injusto e o faz da seguinte forma: “Ora, é injusto o que repugna à natureza da sociedade dos seres dotados de razão”.[3]
Cita, inclusive, Cícero, e corrobora com o pensamento dele, quando sugere ser contra a natureza, despojar o outro em vista de proveito próprio.
A conclusão, à qual se chega, é que o fator determinante e definidor do caráter justo ou injusto de uma guerra, é a mensuração do objetivo dela (guerra).
Desta forma podemos afirmar que agir de forma contrária à natureza seria promover uma guerra injusta. Preservar o que é direito, após, instalada a controvérsia, naturalmente seria uma guerra justa.
É importante ver a promoção de uma guerra por este ponto de vista. A justeza de uma guerra não está nela mesma, mas em sua motivação.
Caso determinados componentes da sociedade humana viessem a se enveredar por um caminho, de usurpação do que pertence a outros elementos desta mesma sociedade, a comunidade em questão não subsistiria.
Qual é o meio de evitar esta tragédia? Agir em conformidade com a natureza.
Como seria possível, aos seres dotados de razão, proceder de acordo com a natureza, num contexto em que outros elementos não agem desta maneira? Promovendo uma guerra (justa), que ao final trará a paz.
Fica patente que obedecidos os critérios da reta razão, é possível a existência de uma guerra justa. Afinal ela tem por objetivo precípuo a busca e manutenção da paz e conseqüentemente da preservação da vida e de seus acessórios, que se seguem a este dom principal (vida).
IV. Bibliografia
GROTIUS, Hugo. O Direito da Guerra e da Paz. Ijuí: Unijuí, 2004.
[1] Extraído do livro “O Direito da Guerra e da Paz” de Hugo Grotius, página 81.
[2] Idem, página 71.
[3] Idem, Idem: página 73.
Publicação original: 20/12/2007
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quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Bitolados da fé?
A bitola é medida-padrão na construção ou indústria. Numa derivação, via sentido figurado, pode ser padrão, regra, opinião, padrão moral, etc. Já o adjetivo “bitolado” indica o que tem idéias ou conhecimento estreitos, rígidos, limitados, ultrapassados. Ainda temos: quadrado, careta e regulado na medida certa.Outra forma de se referir ao bitolado, no contexto que proponho, é chamando-o de “tapado”. Trata-se de uma referência à tapa: venda ou pano que se põe em burro arisco, quando se quer arreá-lo ou carregá-lo.
Lembro-me de explicações dadas com respeito à tapa, dando conta de que era usada em cavalos, burros e similares quando eram empreendidas viagens por caminhos tortuosos e com precipícios. De maneira que a tapa impedia, ao animal, ver o que estava à direita e à esquerda. Desse modo ele iria sempre em frente, sem medo do que estivesse dos lados e, principalmente, sem desviar do caminho à frente.
A explicação, à época, tinha um objetivo: mostrar que o ser humano poderia perfeitamente ser um tapado ou bitolado. As palavras tinham o mesmo sentido, pois se referiam à condição de se possuir conhecimento estreito e, via de regra, adquirido de terceiros, sem qualquer tipo de ponderação crítica.
Viviam-se os anos de chumbo. A desesperança estava instalada, mas não percebida. O povo tinha sido condicionado a pensar de forma bitolada. Eram cidadãos sinceros, mas tapados pelas circunstâncias e força do hábito. Hábito? Pois é...
O ranço da ditadura foi diminuindo dia após dia. Deixou, entretanto, num segmento social a pujança que possuía para alienar, a saber: no segmento religioso!
Habituadas que estavam a pensar o que queriam que pensassem, as pessoas transmitiram esse tipo de comportamento aos filhos – no que tange às crenças religiosas. Daí cada segmento acreditar piamente que é o único que tem a verdade. Como não poderia ser assim? Desde a mais tenra idade a bitola era implementada e a conseqüente proibição velada para que se olhasse para os lados. Só para frente! O caminho estava traçado! Tinha que seguir.
Esse tipo de atitude, implantada de cima para baixo pelos pais e líderes, é conhecido por religião. Sabe-se que não passa de cultura religiosa condicionante, não é? Mas a bitola fez os tapados acreditarem que aquele caminho indicado era e é o caminho único para o céu.
As reflexões que se fazem necessárias:
Continuar seguindo pelo caminho traçado por meio da prática cotidiana é decorrente de convicção pessoal? É possível atribuir a alguém que conhece apenas uma única versão de muitos fatos a condição de ser pensante da fé? Não seriam tais pessoas, de boa índole – é certo, bitoladas e "semi-cegas"?
Afinal que gente é essa, que se arvora à condição de única portadora da verdade, conhecendo apenas uma versão dessa suposta verdade?
Que povo é esse que transmite a tradição, via bitola, e ainda se diz paradigma para o mundo? Afinal o que é isso, que nos causa espécie, mal-estar, sensação de insegurança, medo e ainda nos quer impor um traçado que parece conspirar contra o bom pensamento doutrinário?
É preciso fugir da alienação. Coragem, coragem e coragem!
Enéias Teles Borges
Postagem original: 15/08/2008
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Hobbes e o Estado de Natureza
Texto produzido ao longo do cumprimento dos créditos. Mestrado Universidade São Judas Tadeu, São Paulo, SP. Uso livre, desde que a fonte seja indicada. Postagem original: 17/12/2007.
Hobbes e o Estado de Natureza
1. Introdução
Entender o pensamento de Thomas Hobbes, filósofo metódico, impõe dificuldades diante da complexidade de suas propostas. Uma maneira tida como segura para começar a compreender suas concepções está numa análise do que ele diz do estado de natureza. Os contratualistas foram muito contestados no século XIX (também no século XX) justamente por asseverar que a origem do Estado está num contrato, como se antes dele os homens vivessem livres, sem poder e desorganizados. Essa organização somente seria implantada depois de um pacto voluntário firmado entre todos, que os subordinaria politicamente e propiciaria um convívio social harmonioso.
Uma das dificuldades encontradas para defender o pensamento de Hobbes está na maneira como os filósofos, contrários à postura dos contratualistas, expunham (possivelmente porque não entenderam as concepções hobbesianas) a forma como o contrato social teria sido firmado. Desconsiderando o arrazoado de que o estado de natureza seria hipotético, ridicularizavam a sua origem: afirmavam que seria impossível aos selvagens, sem qualquer espécie de experiência social, o domínio de uma linguagem e a posse de noções elementares do direito ao ponto de se reunirem para firmar um pacto dessa magnitude[1].
É fundamental o aprofundamento nas proposituras de Hobbes, notadamente nas suas concepções sobre o homem e estudar a sua hipótese do estado de natureza, já adiantando que nenhum contratualista pensou que selvagens teriam se reunido com o fito de elaborar uma constituição de estado e que o homem natural de Hobbes não é um selvagem. Deve ficar claro que a natureza do homem não muda com o correr do tempo, ao longo da história, isto é, a análise hobbesiana não é a da transformação da natureza humana, que seria impossível. É um estudo objetivo do homem como uma máquina natural, sujeito ao encadeamento de causas e efeitos, com apetites e aversões, como medo da morte violenta, mas que conserva a esperança da paz duradoura.
2. Liberdade Plena e Igualdade
Hobbes, no Capítulo XIII do Leviatã, concentra-se em expor a condição do homem em seu estado de natureza (ou condição natural do homem):
“A natureza fez os homens tão iguais, quanto às faculdades do corpo e do espírito, que, embora por vezes se encontre um homem manifestamente mais forte de corpo, ou de espírito mais vivo do que outro, mesmo assim, quando se considera tudo isto em conjunto, a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que qualquer um possa com base nela reclamar qualquer benefício a que outro não possa igualmente aspirar.” [2]
A afirmação é aparentemente simples, quando vista no contexto do século XXI. Esse texto famoso, que causou estranheza quanto ao pensamento hobbesiano, não afirma categoricamente que os homens são iguais, mas “tão iguais”, que têm igualdade suficiente para não sobrepujar (ou o contrário) os demais. Tal premissa será melhor entendida, quando forem comparados o estado de natureza com o estado civil. As análises dos comentadores que foram ou serão feitas do pensamento de Hobbes precisam estar concentradas apenas no estado de natureza por ele descrito e apenas ali, isto é, tentar vislumbrar o homem, em seu estado natural, desconsiderando totalmente a imagem que se tem do mesmo ser humano, no estado civil, cheio de regramentos.[3] Somente assim é possível imaginar um estágio de “quase” igualdade entre todos. As diferenças se mostram ínfimas a tal ponto de não serem suficientes para que um homem se sinta mais privilegiado do que o outro.
“Porque quanto à força corporal o mais fraco tem força suficiente para matar o mais forte, quer por secreta maquinação, quer aliando-se com outros que se encontrem ameaçados pelo mesmo perigo.”[4]
Esta igualdade existente no estado de natureza traz conseqüências trágicas, pois de acordo com a argumentação do filósofo, a rivalidade inata dos homens, somada à consciência da igualdade das capacidades de cada um, leva a uma convicção de que existe também igualdade, para se obter um fim. Um homem é opaco aos olhos do outro, um não sabe o que o outro deseja e planeja e é razoável que se conclua que existe uma tensão. As suposições recíprocas sobre os anseios e possibilidades de cada homem forçam a uma conclusão lógica: o mais razoável é que cada um ataque o seu próximo, para vencê-lo ou para se prevenir de um possível ataque contrário.
Assim, a guerra se torna generalizada entre os homens e no estado de guerra fica evidente que, não existindo uma força repressora, é racional[5] que o homem ataque e se defenda. É necessário enfatizar esta análise do pensamento hobbesiano e entender que o estado de guerra entre os homens não é anormal. Os atos de ataque e defesa são os únicos racionais no estado de natureza. Percebe-se que o homem hobbesiano não é um selvagem, mas um ser racional.
Mais adiante, Hobbes argumenta que as Leis da Natureza, como por exemplo o desejo de paz e a garantia da liberdade, levarão os homens a formar um contrato.
Considera que o direito natural (mesmo igualando todos) é prejudicial aos homens, pois leva à guerra. A submissão ao direito civil será a garantia de paz. Dizer que no estado de natureza todos têm direito a tudo, significa dizer que ninguém tem direito a nada, pois não há como garantir esse direito.
Concluimos que Hobbes, ao assumir esta postura, não tinha dúvidas a respeito da positivação do direito e que este deveria tomar o lugar do direito natural, como garantia da sobrevivência do homem, preservando-lhe a vida (maior dom).
Ainda tecendo comentários acerca do comportamento humano no estado de natureza, Hobbes explicita que os homens sentem desgosto quando se reunem, na inexistência de algum poder que se imponha sobre eles. O valor que cada um dá para si (no plano individual) é o mesmo que espera que seus semelhantes lhe outorguem. Caso não consiga esta valorização o homem busca, pelo uso da força, alcançar, dos outros, esta estima.
São apontadas três causas existentes, na natureza humana, que promovem a discórdia: competência, desconfiança e glória.
“A competência impulsiona os homens a atacarem-se para lograr algum benefício; a desconfiança garante-lhes a segurança e a glória, a reputação”. [6]
A violência (competição) é a ferramenta usada pelo homem para conseguir, pela uso da força, apossar-se de pessoas e objetos, a seqüência da violência (desconfiança) é o uso da força para manter os bens auferidos. Ainda usa da força (glória) por motivos menores (como uma opinião divergente), caso se sinta subestimado, “de forma a macular a sua decência, seus amigos, sua nação, sua profissão ou nome de família”. [7]
Diante da ausência de um poder que possa inibir essas ações individuais humanas, pode-se afirmar que está instalado o estado de guerra. Guerra de todos contra todos. E é importante frisar que esta guerra não está adstrita à batalha ou ato de guerrear, mas estende-se ao período de tempo em que predomina a vontade de se insurgir. Esse é um tratamento de Hobbes, quanto à natureza da guerra: é mais que a luta é também a disposição para guerrear.
O que é sugerido da preponderância do pensamento hobbesiano quanto à guerra é que, desconsiderando para fins de entendimento a luta em si, é mister vislumbrar a disposição para o conflito. A vontade de guerrear é a força motivadora para o estado de guerra. O homem tende à guerra e precisa ser dominado por um agente artificial (Estado) e aí fica patente a necessidade da passagem para o estado civil.
(Discussão em análise: liberalismo (conteúdo/essência) e absolutismo (forma) – pontos em questionamento com orientador).
A descrição do homem, no estado de natureza, leva à conclusão lógica do pensamento do filósofo. A liberdade neste estado é prejudicial ao dom maior (vida). Aqui está o elo de conexão entre o estado de natureza e o estado civil. Este elo seria o medo da morte violenta conjugado com a esperança da paz?
Antes de considerar o medo e a esperança em Hobbes urge analisar o efeito desta concepção antes apontada. Hobbes tinha plena consciência de que a sua definição do homem haveria de chocar os seus leitores que se prendiam à definição aristotélica do homem como animal social. Para Aristóteles o homem, por natureza vive em sociedade e nela desenvolve as suas potencialidades. As pessoas que se respaldavam no pensamento clássico preferiam fechar os olhos à tensão que há na convivência com os demais homens. Hobbes destaca:
“Poderá parecer estranho a alguém que não tenha medido bem estas coisas que a natureza tenha assim dissociados os homens, tornando-os capazes de se atacarem e destruirem uns aos outros. E poderá portanto talvez desejar, não confiando nesta inferência feita das paixões, que ela seja confirmada pela experiência. Que seja portanto ele a considerar-se a si mesmo, que quando empreende uma viagem se arma e procura ir bem acompanhado; quando vai dormir fecha as suas portas; mesmo quando está em casa tranca os seus cofres, embora saiba que existem leis e servidores públicos armados, prontos a vingar qualquer dano que possa lhe ser feito. Que opinião tem ele dos seus compatriotas, ao viajar armado; dos seus concidadãos, ao fechar as suas portas; e dos filhos e criados, quando tranca os seus cofres? Não significa isso acusar tanto a humanidade com os seus atos como eu o faço com as minhas palavras? Mas nenhum de nós acusa com isso a natureza humana. Os desejos e outras paixões do homem não são em si mesmos um pecado. Tampouco o são as ações que derivam dessas paixões, até o momento em que se tome conhecimento de uma lei que as proíba, o que será impossível até o momento em que sejam feitas as leis, e nenhuma lei pode ser feita antes de se ter concordado quanto à pessoa que deverá fazê-la.”
Hobbes conclama um novo exame e que os preconceitos arraigados e oriundos do pensamento aristotélico e da filosofia escolástica medieval sejam extirpados. A concepção de que o homem é um ser sociável por natureza impede a identificação do conflito e o seu combate efetivo. O pensador inglês insiste que é mister entender como o homem é de fato (sem ilusão). Com a ciência política será possível construir estados estáveis, caso contrário existirão sociedades instáveis e em permanente guerra civil.
Sem estabilidade existe o medo - que precisa ser considerado. Um estudo do capítulo XIII do Leviatã, aponta-o como uma presença constante no estado de guerra:
“Portanto, tudo aquilo que se infere de um tempo de guerra, em que o homem é inimigo de todo o homem, infere-se também do tempo durante o qual os homens vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida pela sua própria força e pela sua própria invenção”. [8]
Hobbes, na seqüência desta ponderação aponta as mazelas promovidas pelo estado de guerra. O homem preocupado com sua própria defesa e sobrevivência não tem tempo nem disposição para desenvolver outras atividades necessárias à sua sobrevivência (plantar, colher, construir, navegar, etc). E completa: “... e o que é pior do que tudo, um medo contínuo e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, miserável, sórdida, brutal e curta.” [9]
Duas discussões emergem deste texto de Hobbes: a primeira é a de que o homem hobbesiano é medroso e esta paixão teria sido o agente criador do estado civil. O medo da morte violenta forçou o homem a criar um mecanismo de defesa, que é o homem artificial. Pensar somente desta forma, ao que tudo indica, é resultado de uma análise histórica da vida de Hobbes, em especial o contexto de seu nascimento e infância.[10] A segunda discussão não descarta o medo, mas agrega-lhe outra paixão, que é a esperança. “Mas não é possível escutar a filosofia hobbesiana pela nota só do medo, que não existe sem o contraponto da esperança.”[11] A esperança se manifesta na própria forma de expressão de Hobbes, que tem certeza da paz, vida e progresso no estado civil. A esperança de um estado de paz só existiria a partir do medo (no estado natural), do qual já se falou.
Outra discussão é derivada das duas anteriores: o homem de Hobbes, no estado de natureza, é solitário e miserável. Pois não lhe restando tempo para outra coisa a não ser guerrear ou estar pronto para a batalha, tem vida sórdita e curta.
É possível notar claramente no discurso de Hobbes sobre o estado natural, a proposição de uma premissa que explica e justifica o advento necessário do estado civil. É patente que o homem no estado de natureza não é um selvagem (irracional). Não tendo alternativas para se proteger (libertade total para todos – que são “... tão iguais...”), viu-se num estado permanente de guerra de todos contra todos. Como por fim à tensão que traz o medo? Como alcançar a paz (esperança)?.
Considerações em andamento, neste mesmo capítulo: Direito de Natureza (liberdade de cada um para usar seu próprio poder) e Lei de Natureza (preceito ou regra geral, estabelecido pela razão o qual se proíbe a um homem fazer tudo o que possa destruir a sua vida (...))
3. Bibliografia
GROTIUS, Hugo. O Direito da Guerra e da Paz. Ijuí: Unijuí, 2004.
HOBBES, Thomas. Do Cidadão. 3ª. ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2002. – (Clássicos).
_______________. Leviatã. 2ª. ed. – São Paulo: Ícone, 2000.
_______________. Os Elementos da Lei Natural e Política. – São Paulo: Ícone, 2002.
BERNARDES, Julio. Hobbes e a Liberdade. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
LIMONGI, Maria Isabel. Hobbes. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
LOCKE, John. Dois Tratados Sobre o Governo. – São Paulo: Martins Fones 1998. – (Clássicos).
SKINNER, Quentin. As Fundações do Pensamento Político Moderno. – São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
TUCK, Richard. Natural Rights Theories. – CUP. – 1979.
_____________. Hobbes. – São Paulo: Edições Loyola, 2001.
[1] Na metade do século XIX Sir Henry Maine, numa interpretação sociológica do direito, considerava impossível a existência de um pacto, antes da formação de uma sociedade. O contrato somente seria possível após longa experiência de vida social.
[2] Capítulo XIII, 1º parágrafo.
[3] É importante neste capítulo visualizar a igualdade sugerida por Hobbes sem a influência do pensamento moderno. O contexto deve ser adstrito apenas ao hipotético estado apresentado pelo filósofo.
[4] Capítulo XIII, 1º parágrafo.
[5] O senso de defesa no estado natural é evidência da racionalidade humana, da consciência de que não existe outra opção.
[6] Leviatã, Capítulo XIII, página 95
[7] Idem, página 96
[8] Leviatã, capítulo XIII, página 109.
[9] Idem.
[10] Nos idos de 1588 a Inglaterra (Nação protestante) aguardava a invasão espanhola. As cidades ribeirinhas espreitavam o desembarque daquela armada tida como invencível. Neste tempo de pânico Hobbes nasceu e ele mesmo reflexionou sobre isto, noventa anos depois, ao dizer que sua mãe teria parido gêmeos: ele (hobbes) e o medo.
[11] Renato Janine Ribeiro, em sem livro “Ao Leitor sem Medo”, página 23.
Hobbes e o Estado de Natureza
1. Introdução
Entender o pensamento de Thomas Hobbes, filósofo metódico, impõe dificuldades diante da complexidade de suas propostas. Uma maneira tida como segura para começar a compreender suas concepções está numa análise do que ele diz do estado de natureza. Os contratualistas foram muito contestados no século XIX (também no século XX) justamente por asseverar que a origem do Estado está num contrato, como se antes dele os homens vivessem livres, sem poder e desorganizados. Essa organização somente seria implantada depois de um pacto voluntário firmado entre todos, que os subordinaria politicamente e propiciaria um convívio social harmonioso.
Uma das dificuldades encontradas para defender o pensamento de Hobbes está na maneira como os filósofos, contrários à postura dos contratualistas, expunham (possivelmente porque não entenderam as concepções hobbesianas) a forma como o contrato social teria sido firmado. Desconsiderando o arrazoado de que o estado de natureza seria hipotético, ridicularizavam a sua origem: afirmavam que seria impossível aos selvagens, sem qualquer espécie de experiência social, o domínio de uma linguagem e a posse de noções elementares do direito ao ponto de se reunirem para firmar um pacto dessa magnitude[1].
É fundamental o aprofundamento nas proposituras de Hobbes, notadamente nas suas concepções sobre o homem e estudar a sua hipótese do estado de natureza, já adiantando que nenhum contratualista pensou que selvagens teriam se reunido com o fito de elaborar uma constituição de estado e que o homem natural de Hobbes não é um selvagem. Deve ficar claro que a natureza do homem não muda com o correr do tempo, ao longo da história, isto é, a análise hobbesiana não é a da transformação da natureza humana, que seria impossível. É um estudo objetivo do homem como uma máquina natural, sujeito ao encadeamento de causas e efeitos, com apetites e aversões, como medo da morte violenta, mas que conserva a esperança da paz duradoura.
2. Liberdade Plena e Igualdade
Hobbes, no Capítulo XIII do Leviatã, concentra-se em expor a condição do homem em seu estado de natureza (ou condição natural do homem):
“A natureza fez os homens tão iguais, quanto às faculdades do corpo e do espírito, que, embora por vezes se encontre um homem manifestamente mais forte de corpo, ou de espírito mais vivo do que outro, mesmo assim, quando se considera tudo isto em conjunto, a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que qualquer um possa com base nela reclamar qualquer benefício a que outro não possa igualmente aspirar.” [2]
A afirmação é aparentemente simples, quando vista no contexto do século XXI. Esse texto famoso, que causou estranheza quanto ao pensamento hobbesiano, não afirma categoricamente que os homens são iguais, mas “tão iguais”, que têm igualdade suficiente para não sobrepujar (ou o contrário) os demais. Tal premissa será melhor entendida, quando forem comparados o estado de natureza com o estado civil. As análises dos comentadores que foram ou serão feitas do pensamento de Hobbes precisam estar concentradas apenas no estado de natureza por ele descrito e apenas ali, isto é, tentar vislumbrar o homem, em seu estado natural, desconsiderando totalmente a imagem que se tem do mesmo ser humano, no estado civil, cheio de regramentos.[3] Somente assim é possível imaginar um estágio de “quase” igualdade entre todos. As diferenças se mostram ínfimas a tal ponto de não serem suficientes para que um homem se sinta mais privilegiado do que o outro.
“Porque quanto à força corporal o mais fraco tem força suficiente para matar o mais forte, quer por secreta maquinação, quer aliando-se com outros que se encontrem ameaçados pelo mesmo perigo.”[4]
Esta igualdade existente no estado de natureza traz conseqüências trágicas, pois de acordo com a argumentação do filósofo, a rivalidade inata dos homens, somada à consciência da igualdade das capacidades de cada um, leva a uma convicção de que existe também igualdade, para se obter um fim. Um homem é opaco aos olhos do outro, um não sabe o que o outro deseja e planeja e é razoável que se conclua que existe uma tensão. As suposições recíprocas sobre os anseios e possibilidades de cada homem forçam a uma conclusão lógica: o mais razoável é que cada um ataque o seu próximo, para vencê-lo ou para se prevenir de um possível ataque contrário.
Assim, a guerra se torna generalizada entre os homens e no estado de guerra fica evidente que, não existindo uma força repressora, é racional[5] que o homem ataque e se defenda. É necessário enfatizar esta análise do pensamento hobbesiano e entender que o estado de guerra entre os homens não é anormal. Os atos de ataque e defesa são os únicos racionais no estado de natureza. Percebe-se que o homem hobbesiano não é um selvagem, mas um ser racional.
Mais adiante, Hobbes argumenta que as Leis da Natureza, como por exemplo o desejo de paz e a garantia da liberdade, levarão os homens a formar um contrato.
Considera que o direito natural (mesmo igualando todos) é prejudicial aos homens, pois leva à guerra. A submissão ao direito civil será a garantia de paz. Dizer que no estado de natureza todos têm direito a tudo, significa dizer que ninguém tem direito a nada, pois não há como garantir esse direito.
Concluimos que Hobbes, ao assumir esta postura, não tinha dúvidas a respeito da positivação do direito e que este deveria tomar o lugar do direito natural, como garantia da sobrevivência do homem, preservando-lhe a vida (maior dom).
Ainda tecendo comentários acerca do comportamento humano no estado de natureza, Hobbes explicita que os homens sentem desgosto quando se reunem, na inexistência de algum poder que se imponha sobre eles. O valor que cada um dá para si (no plano individual) é o mesmo que espera que seus semelhantes lhe outorguem. Caso não consiga esta valorização o homem busca, pelo uso da força, alcançar, dos outros, esta estima.
São apontadas três causas existentes, na natureza humana, que promovem a discórdia: competência, desconfiança e glória.
“A competência impulsiona os homens a atacarem-se para lograr algum benefício; a desconfiança garante-lhes a segurança e a glória, a reputação”. [6]
A violência (competição) é a ferramenta usada pelo homem para conseguir, pela uso da força, apossar-se de pessoas e objetos, a seqüência da violência (desconfiança) é o uso da força para manter os bens auferidos. Ainda usa da força (glória) por motivos menores (como uma opinião divergente), caso se sinta subestimado, “de forma a macular a sua decência, seus amigos, sua nação, sua profissão ou nome de família”. [7]
Diante da ausência de um poder que possa inibir essas ações individuais humanas, pode-se afirmar que está instalado o estado de guerra. Guerra de todos contra todos. E é importante frisar que esta guerra não está adstrita à batalha ou ato de guerrear, mas estende-se ao período de tempo em que predomina a vontade de se insurgir. Esse é um tratamento de Hobbes, quanto à natureza da guerra: é mais que a luta é também a disposição para guerrear.
O que é sugerido da preponderância do pensamento hobbesiano quanto à guerra é que, desconsiderando para fins de entendimento a luta em si, é mister vislumbrar a disposição para o conflito. A vontade de guerrear é a força motivadora para o estado de guerra. O homem tende à guerra e precisa ser dominado por um agente artificial (Estado) e aí fica patente a necessidade da passagem para o estado civil.
(Discussão em análise: liberalismo (conteúdo/essência) e absolutismo (forma) – pontos em questionamento com orientador).
A descrição do homem, no estado de natureza, leva à conclusão lógica do pensamento do filósofo. A liberdade neste estado é prejudicial ao dom maior (vida). Aqui está o elo de conexão entre o estado de natureza e o estado civil. Este elo seria o medo da morte violenta conjugado com a esperança da paz?
Antes de considerar o medo e a esperança em Hobbes urge analisar o efeito desta concepção antes apontada. Hobbes tinha plena consciência de que a sua definição do homem haveria de chocar os seus leitores que se prendiam à definição aristotélica do homem como animal social. Para Aristóteles o homem, por natureza vive em sociedade e nela desenvolve as suas potencialidades. As pessoas que se respaldavam no pensamento clássico preferiam fechar os olhos à tensão que há na convivência com os demais homens. Hobbes destaca:
“Poderá parecer estranho a alguém que não tenha medido bem estas coisas que a natureza tenha assim dissociados os homens, tornando-os capazes de se atacarem e destruirem uns aos outros. E poderá portanto talvez desejar, não confiando nesta inferência feita das paixões, que ela seja confirmada pela experiência. Que seja portanto ele a considerar-se a si mesmo, que quando empreende uma viagem se arma e procura ir bem acompanhado; quando vai dormir fecha as suas portas; mesmo quando está em casa tranca os seus cofres, embora saiba que existem leis e servidores públicos armados, prontos a vingar qualquer dano que possa lhe ser feito. Que opinião tem ele dos seus compatriotas, ao viajar armado; dos seus concidadãos, ao fechar as suas portas; e dos filhos e criados, quando tranca os seus cofres? Não significa isso acusar tanto a humanidade com os seus atos como eu o faço com as minhas palavras? Mas nenhum de nós acusa com isso a natureza humana. Os desejos e outras paixões do homem não são em si mesmos um pecado. Tampouco o são as ações que derivam dessas paixões, até o momento em que se tome conhecimento de uma lei que as proíba, o que será impossível até o momento em que sejam feitas as leis, e nenhuma lei pode ser feita antes de se ter concordado quanto à pessoa que deverá fazê-la.”
Hobbes conclama um novo exame e que os preconceitos arraigados e oriundos do pensamento aristotélico e da filosofia escolástica medieval sejam extirpados. A concepção de que o homem é um ser sociável por natureza impede a identificação do conflito e o seu combate efetivo. O pensador inglês insiste que é mister entender como o homem é de fato (sem ilusão). Com a ciência política será possível construir estados estáveis, caso contrário existirão sociedades instáveis e em permanente guerra civil.
Sem estabilidade existe o medo - que precisa ser considerado. Um estudo do capítulo XIII do Leviatã, aponta-o como uma presença constante no estado de guerra:
“Portanto, tudo aquilo que se infere de um tempo de guerra, em que o homem é inimigo de todo o homem, infere-se também do tempo durante o qual os homens vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida pela sua própria força e pela sua própria invenção”. [8]
Hobbes, na seqüência desta ponderação aponta as mazelas promovidas pelo estado de guerra. O homem preocupado com sua própria defesa e sobrevivência não tem tempo nem disposição para desenvolver outras atividades necessárias à sua sobrevivência (plantar, colher, construir, navegar, etc). E completa: “... e o que é pior do que tudo, um medo contínuo e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, miserável, sórdida, brutal e curta.” [9]
Duas discussões emergem deste texto de Hobbes: a primeira é a de que o homem hobbesiano é medroso e esta paixão teria sido o agente criador do estado civil. O medo da morte violenta forçou o homem a criar um mecanismo de defesa, que é o homem artificial. Pensar somente desta forma, ao que tudo indica, é resultado de uma análise histórica da vida de Hobbes, em especial o contexto de seu nascimento e infância.[10] A segunda discussão não descarta o medo, mas agrega-lhe outra paixão, que é a esperança. “Mas não é possível escutar a filosofia hobbesiana pela nota só do medo, que não existe sem o contraponto da esperança.”[11] A esperança se manifesta na própria forma de expressão de Hobbes, que tem certeza da paz, vida e progresso no estado civil. A esperança de um estado de paz só existiria a partir do medo (no estado natural), do qual já se falou.
Outra discussão é derivada das duas anteriores: o homem de Hobbes, no estado de natureza, é solitário e miserável. Pois não lhe restando tempo para outra coisa a não ser guerrear ou estar pronto para a batalha, tem vida sórdita e curta.
É possível notar claramente no discurso de Hobbes sobre o estado natural, a proposição de uma premissa que explica e justifica o advento necessário do estado civil. É patente que o homem no estado de natureza não é um selvagem (irracional). Não tendo alternativas para se proteger (libertade total para todos – que são “... tão iguais...”), viu-se num estado permanente de guerra de todos contra todos. Como por fim à tensão que traz o medo? Como alcançar a paz (esperança)?.
Considerações em andamento, neste mesmo capítulo: Direito de Natureza (liberdade de cada um para usar seu próprio poder) e Lei de Natureza (preceito ou regra geral, estabelecido pela razão o qual se proíbe a um homem fazer tudo o que possa destruir a sua vida (...))
3. Bibliografia
GROTIUS, Hugo. O Direito da Guerra e da Paz. Ijuí: Unijuí, 2004.
HOBBES, Thomas. Do Cidadão. 3ª. ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2002. – (Clássicos).
_______________. Leviatã. 2ª. ed. – São Paulo: Ícone, 2000.
_______________. Os Elementos da Lei Natural e Política. – São Paulo: Ícone, 2002.
BERNARDES, Julio. Hobbes e a Liberdade. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
LIMONGI, Maria Isabel. Hobbes. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
LOCKE, John. Dois Tratados Sobre o Governo. – São Paulo: Martins Fones 1998. – (Clássicos).
SKINNER, Quentin. As Fundações do Pensamento Político Moderno. – São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
TUCK, Richard. Natural Rights Theories. – CUP. – 1979.
_____________. Hobbes. – São Paulo: Edições Loyola, 2001.
[1] Na metade do século XIX Sir Henry Maine, numa interpretação sociológica do direito, considerava impossível a existência de um pacto, antes da formação de uma sociedade. O contrato somente seria possível após longa experiência de vida social.
[2] Capítulo XIII, 1º parágrafo.
[3] É importante neste capítulo visualizar a igualdade sugerida por Hobbes sem a influência do pensamento moderno. O contexto deve ser adstrito apenas ao hipotético estado apresentado pelo filósofo.
[4] Capítulo XIII, 1º parágrafo.
[5] O senso de defesa no estado natural é evidência da racionalidade humana, da consciência de que não existe outra opção.
[6] Leviatã, Capítulo XIII, página 95
[7] Idem, página 96
[8] Leviatã, capítulo XIII, página 109.
[9] Idem.
[10] Nos idos de 1588 a Inglaterra (Nação protestante) aguardava a invasão espanhola. As cidades ribeirinhas espreitavam o desembarque daquela armada tida como invencível. Neste tempo de pânico Hobbes nasceu e ele mesmo reflexionou sobre isto, noventa anos depois, ao dizer que sua mãe teria parido gêmeos: ele (hobbes) e o medo.
[11] Renato Janine Ribeiro, em sem livro “Ao Leitor sem Medo”, página 23.
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