sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O caçador e a caça

Conseguir a caça pode ser, para o caçador, o suposto resultado de suas preces. Sim, porque muitos que caçam pedem providências do alto para conseguir trazer o pão para dentro de casa. E neste nosso mundo o caçador também pode ser a caça. A questão é: quem criou o caçador, também criou a caça? Infeliz daquele que nasce para ser a caça...

Lembro-me de uma historieta contada por um pastor, quando eu ainda era adolescente, que muito marcou meu pensamento. Era mais ou menos assim: “Num inverno terrível um caçador estava procurando um animal em meio à neve. Pretendia caçar um que lhe possibilitasse a confecção de uma roupa robusta que o protegesse do frio. Orou pedindo providências divinas. No mesmo momento um urso saiu para caçar. Não sentia frio, mas estava faminto. Orou pedindo providências dos altos”.

Continuando a narrativa ele disse: “Quando o homem abriu os olhos, deparou-se com o urso na sua frente e logo exclamou:” “Eis o resultado de minha prece! Eu vou matar o urso e da sua pele farei um casaco”. “No mesmo instante o urso abriu os olhos e viu o homem e pensou:” “Eis o resultado de minha oração, a comida está diante de mim...”

O pastor terminou a historieta com um final cômico que fez a igreja “cair na gargalhada”. Eu não achei engraçado, pois o final da historinha não me agradou. O pastor disse: “E cada um teve a sua oração atendida. O urso comeu o homem e matou a sua fome. O homem, por fim, ganhou seu casaco de peles...”

O caçador e a caça! Quando a divindade atende ao pedido do caçador teria deixado de atender ao pedido da caça? Para o caçador sempre existe um deus que provê, correto? E para a caça? Quando alguém vai à luta, disputando poucos espaços e consegue a vitória, sua prece foi atendida? E a prece daquele que não conseguiu?

O mundo do caçador e da caça me surpreende a cada instante. E me vejo a pensar nos trabalhos dos macumbeiros que fazem “serviços” para que seus “clientes” alcancem a vitória. O melhor exemplo que vislumbro neste instante é o do futebol baiano. Muitos feitiços são feitos para que um time vença e por diferentes operadores da fé. Como fica para o derrotado?

Meu consolo vem de uma frase do saudoso João Saldanha, o João “sem medo”: “Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminaria empatado...”

Penso: “se oração resultasse em bênçãos o mundo inteiro viveria num contexto de felicidade por igual...” O ponto chave é: para quem endereçar a prece? Localizando o destinatário ele protegeria o caçador? E quando o caçador vira caça?

Nesse mundo de deuses variados, cada um conforme a agremiação da fé, é horrível ser a caça...

Enéias Teles Borges
Postagem original: 09/03/2009
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2 comentários:

Cleiton Heredia disse...

Para o pensamento religioso (com base essencialmente na fé e pouco na razão) qualquer tipo de resposta é sempre considerada como uma resposta divina (quer você seja caça ou caçador).

Você já ouviu aquela história que Deus sempre responde de três maneiras?

Sim, Não e Espere um pouco.

Acontece que crendo ou não em Deus sempre existirão estas três alternativas.

A diferença está justamente na maneira como estas alternativas são interpretadas: o religioso as vê como a direção Deus para a sua vida; o ateu apenas as encara como resultados da lei da ação e reação ou simplesmente do acaso.

Confesso que o pensamento religioso é muito mais tranquilizador, pois para tudo que lhe acontece sempre vê um propósito delineado pela vontade divina.

Porém, a questão com que me deparo no momento não é qual a idéia mais confortante para mim, e sim qual é a verdade!

Se não posso ser um convicto, também não quero ser um alienado.

Carlos H. disse...

Caro amigo,

Seu texto me lembrou um vídeo que chegou a mim tempos atrás, mostrando um grupo de judeus aguardando a morte nos campos nazistas e discutindo sobre Deus. A conclusão deles: "Deus não é bom, ele apenas estava do nosso lado". Ou, de outra forma: "Desta vez, seremos a caça".

Segue o link: http://www.youtube.com/watch?v=d-5OnxlzS40

Abracos!

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