sábado, 27 de novembro de 2010

Professor aloprado? Alienado?

O professor falava aos alunos do ensino médio e também os aconselhava. Não deveriam ler determinado livro. A obra em questão era a sensação do momento. Muitos alunos daquela classe já a tinham lido e outros pretendiam lê-la.

Por razões que diziam respeito ao proselitismo naquela instituição confessional, de tradição milenar, o professor insistia em dizer que aquela publicação só traria malefícios ao eventual leitor.

Os alunos notaram, pela forma como professor defendia seu ponto de vista, que ele não tinha separado um tempo para a leitura daquele material. Seu arrazoado era fundado em opiniões de terceiros.

Um aluno, educadamente, perguntou: “professor, o senhor leu o livro?”. Resposta: “não”. De novo o aluno: “como então pode dizer que é ruim?”

Notem que esse tipo de questionamento é natural entre os adolescentes.

O professor, para finalizar o assunto, respondeu: “não preciso usar drogas, para saber que fazem mal...”.

Frase dita com firmeza, cara feia, para que não houvesse mais questionamento!

O que fazer nessa situação? Nem entro no mérito para dizer qual era o livro: seria “O Código da Vinci”? Ou “Senhor dos Anéis”? Ou “Harry Potter”? Qualquer outro?

Atenho-me (apenas) a esse tipo de resposta. Cômica ou trágica?

Os alunos, por inexperiência, propõem questões de forma contundente, mas sem eficácia. A maneira como a pergunta é formalizada permite a esse tipo de educador a oportunidade de mostrar sua face – que precisa ser repudiada. Às vezes é a fisionomia da truculência, mesmo que com aparente respeito.

Imaginem se a pergunta fosse mais ou menos assim: “professor, com todo o respeito, quero lhe fazer uma pergunta, sabendo que não receberei uma resposta do tipo não preciso fumar, para saber que provoca câncer; e sim que terei uma resposta edificante, à altura de sua condição de professor: o senhor leu o livro”?

Tudo no bom humor, certo? Mas existiria outra maneira de formalizar essa pergunta ao “professor aloprado”? Vamos esclarecer o termo aloprado? “Amalucado”, “adoidado” ou “desatinado”.

Professor aloprado? Ou seria um alienado apesar de se julgar convicto?

É preciso entender os adjetivos citados: convicto é aquele que tem certeza de algo, que foi convencido, que foi persuadido. Tal convicção requer fundamento para que seja fixada na mente e adotada na vida. Alienado é aquele que voluntariamente ou não se mantém distante das realidades que o cercam.

A questão é: por que muitos educadores disseminam idéias que não lhes pertencem? Por que não fazem uma crítica de conteúdo? Como conseguem ter a coragem de repassar para seus alunos algo que não conhecem, com base na opinião de terceiros?

Um dia (faz tempo) eu ouvi de um professor uma frase que me causou imensa decepção. Eu esperava mais daquele professor. Ele tinha envergadura suficiente para apresentar uma resposta de mestre. Era uma questão técnica. O que eu ouvi? “Assim recebi, assim transmito”. Algo como “vender o peixe” pelo mesmo preço que pagou.

Uma resposta assim fica como “a sombra da decepção” na vida de um aluno.

Enéias Teles Borges
Postagem original: 12/03/2008
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Um comentário:

Carlos H. Barth disse...

Sinceramente, também não consigo compreender a coragem de repassar adiante em tom convicto uma idéia qualquer sem que tenha dado meu melhor no intuito de analisá-la desapaixonadamente.

Pior do que isso, a partir do momento em que estes professores passam a divulgar tais idéias, cria-se uma nova barreira. A partir de agora, ele não precisará apenas rever seu posicionamento em uma auto-análise sincera, mas também, caso mude de idéia, externar isso ao público. Admitir que estava errado. Muitas vezes, admitir que estava errado para alguem que julga "inferior", mesmo que apenas no que tange determinado tema. Mudar de idéia deixa de ser apenas uma questão de ampliar o tempo destinado à reflexão e passa a ter implicações sociais, resvalando no ego e na auto-estima.

Isso gera também uma tendência quase inconsciente de buscar adendos apenas onde, sabidamente, todos compartilham da mesma visão. Ou alguém espera encontrar um questionamento legítimo sobre a existẽncia de Deus em uma igreja adventista? (Você é uma exceção Enéias!) Rs. Quanto mais ele busca, mais convencido fica, pois só busca onde sabe o que vai encontrar.

Parece que o ato de repassar informações sem análise não exige coragem, mas sim imensa covardia.

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