segunda-feira, 29 de novembro de 2010

É cegueira ou é esperteza?

Como sempre deixei claro eu fui criado dentro de um contexto protestante, tendo, inclusive, me bacharelado em teologia. Repito isso para historiar um episódio que gerou em mim uma pergunta: É cegueira (pela ingenuidade) ou é esperteza (pela malandragem)?

Um conhecido meu, também adventista, fez faculdade no estado de São Paulo e logo deparou com um problema. Aulas no sábado. Como sabem os adventistas do Sétimo Dia (ASD) têm o sábado como dia especial e que, portanto, deve ser mantido “santo”.

Ocorre que determinada matéria desse amigo seria ministrada exclusivamente no sábado pela manhã. Um semestre inteiro tendo aquela disciplina! O que fazer? Ele orou, pediu a bênção divina e foi conversar com o professor. Explicou sua situação e o professor permitiu: (a) que ele ficasse sem assistir às aulas e (b) sem necessidade de fazer provas. Em resumo: ele foi aprovado numa matéria sem ter assistido às aulas e sem ter feito as provas de avaliação.

Costuma contar isso a quem quer ouvir como se fosse uma bênção divina!

As perguntas que me ocorreram à época:

(1) O professor tem essa autoridade? É possível conceder presença a um aluno ausente? É possível aprovar um aluno, em determinada disciplina sem que ele tenha assistido às aulas e se submetido à avaliação?

(2) O professor fez isso com aprovação da escola? Se o fez a escola teria essa autoridade?

(3) Caso a escola, tendo sabido do assunto, pediu autorização ao Ministério da Educação e Cultura? Se o fez o MEC teria concordado?

Minha maneira de pensar é bem simples: para “guardar” o sábado esse meu amigo conseguiu induzir um professor a errar e uma faculdade a aprovar um aluno que não merece a graduação que tem.

Não teria sido melhor assistir às aulas no sábado e “errar sozinho?” Quem sabe, como exercício de fé, ele não deveria ter abandonado a disciplina, ainda que a conclusão do curso fosse atrasada?

Por essas e outras pergunto a muitos que transformam a mentira e o engodo em “bênção divina”: É cegueira ou é esperteza?

Enéias Teles Borges
Postagem original: 04/02/2009
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5 comentários:

Cleiton Heredia disse...

Muito bom!

Isto também me faz lembrar daqueles testemunhos que costumava ouvir na igreja daqueles que trabalhavam em locais que exigiam plantão aos sábados. Eles falavam de como Deus era bom e fiel por ter providenciado alguém para substituí-los no sábado.

Quer dizer, não importa se outra pessoa irá errar (ou pecar) em meu lugar, com quanto isto livre a minha cara diante de Deus.

Achei sua pergunta muito oportuna: "Por que não errar (ou pecar) sozinho?"

Eu diria que isto se trata de uma cegueira esperta!

Carlos H. disse...

Interessante como uma restrição que a própria pessoa aplica a si mesma (independentemente dos fundamentos) tornou-se neste caso uma "vantagem"... me lembra um caso de uma pessoa humilde (embora nem tanto) mas que recebia diversas bolsas de ajuda do governo indevidamente... e julgavam aquilo da mesma forma: ajuda divina. Quantas atrocidades ou injustiças já não foram cometidas por pessoas que seguiam esta linha de pensamento, que coloca a liberdade religiosa acima da moral e da justiça? Então por convicção religiosa eu poderia apedrejar os adúlteros sem ser punido ou ter pena abrandada? Claro, as consequências sociais de um caso isolado como o citado no post são menores do que esse exemplo extremo ilustrativo mas ambos os casos tem fundamentos semelhantes.

Ricardo disse...

É sem-vegonhice mesmo. Puro mau-caratismo. É a adoração ao deus da pilantragem.

Ebenézer disse...

Ponto de vista: a bênção para o gato é maldição para o rato. Quando estamos na posição do gato dificilmente enxergamos o outro lado.

Há casos na própria Bíblia em que o "povo gato" foi orientado a matar os inimigos, inclusive criancinhas inocentes (azar delas, que nasceram do lado "rato"). Eles assim agiam e depois comemoravam a vitória. A motivação (ou pretexto) para tamanha agressividade/violência era um "assim diz o Senhor". Mas, se esse Deus supostamente criou a todos, como entender esse contra-senso? Não sei. Não faz sentido para mim. Talvez os "gatos" digam que religião é para ser praticada e não para ser entendida.

Jorge disse...

Interessante, muito interessante essa reflexão! Igualmente criativas as reações que se seguiram.
Me parece que a linha adotada para análise em ambos os casos, toma por "contundente" e até certo ponto "errado" o que me ocorre ser "justo" e "certo".
Causa e efeito! Saúde e doença, corajem e preguiça, dedicação e promoção, revolta e crítica, amor e satisfação...
Abraços, Jorge.

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