segunda-feira, 27 de abril de 2009

UMA FACETA DO DELÍRIO

Busquei uma definição de "delírio" no dicionário HOUAISS:

Convicção errônea baseada em falsas conclusões tiradas dos dados da realidade exterior, mantida por uma pessoa, ainda que a maioria dos membros do seu grupo pense o contrário e possa provar que está certa (O delírio se distingue da alucinação por ser independente das impressões sensoriais e por apresentar idéias supervalorizadas, rigidamente ligadas à crença delirante).

Eis um substantivo masculino que me causa estranheza, uma sensação desagradável de profunda insegurança.

Não faz muito observei um título de um livro (ainda não o li) que assombrou o mundo criacionista. “Deus um Delírio”, título que causou desprezo, furor e muito mais.

Não quero comentar o livro (quem sabe quando eu puder lê-lo de forma desapaixonada?). Prendo-me ao substantivo delírio e sinto que devo entendê-lo de forma mais ampla, além da conceituação básica.

Será que o inverso é possível? Seria crível que uma pessoa apenas estivesse certa e a maioria delirando? O que é delírio? Uma falsa conclusão ou a conclusão de um que diverge daquela da maioria? O objeto do delírio é a irrealidade ou a convicção de apenas um (ou poucos)?

Quantas vezes eu li e ouvi esta frase: “a voz do povo é a voz de Deus”. Sempre a ouvi e li quando usada para defender os interesses da maioria (grande massa). Em sendo assim eu deveria concluir que a solução da maioria é a solução correta e que sempre a minoria estaria delirando?

Mas há uma premissa: não basta ser a maioria. Há que se fazer prova. Concluo, portanto, afirmando que o ser delirante é aquele que estando do lado oposto à maioria não consegue provar sua tese. Ademais devo dizer que a famigerada maioria não se escuda no seu volume (massa), mas na prova.

A estranheza permanece. Até que ponto a prova poderia ser corrompida, induzindo a maioria ao erro e deixando o solitário coberto de razão? Pergunto mais: até que ponto a prova é tão importante? E o instinto, fé...?

Pretendo voltar ao tema. Robustecendo o que foi insinuado acima. São perguntas singelas lançadas ao vento. Palavras simples impressas para reflexão. Este texto não tem qualquer pretensão conclusiva a não ser provocar o fomento do refletir.

Um bom começo para o estudo do tema é o conceito, etimologia da palavra e seu contexto histórico.

É possível que o delírio esteja na definição convencional...

Será?
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Publicação original: 20/01/2008
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2 comentários:

Ebenézer disse...

Ensaio interessante sobre uma palavra que esconde em si um universo.

Sobre o significado etimológico, "delírio" é composto por de (fora de, afastado de) e liros (sulco de arado). Essa palavra nos remete à época da semeadura, quando o lavrador trabalhava a terra fazendo sulcos compridos e paralelos entre si nos quais seriam lançadas as sementes. Trabalhando por longas horas e sob sol intenso, seus pensamento começavam a viajam, distanciando-se da realidade. Ele se distraía e sonhava enquanto o arado cortava a terra já sem rumo fixo e em linhas desconexas. Dizia-se, então, que o lavrador estava delirando...

Carlos H. Barth disse...

Fantástico tema Enéias.

Uma vez disseram que "a crença absurda de um é um delírio, a crença absurda de muitos é religião". Não estou atribuindo delírio a toda e qualquer religião, estou apenas querendo demonstrar uma interpretação dessa palavra oriunda do senso comum.

Onde termina o erro interpretativo e começa o delírio? Onde termina a esperança e a perseverança e começa o delírio?

O delírio é absoluto? Talvez o que é um delírio em uma cultura, possa não ser em outra. Se ele é relativo, a discussão tende ao infinito...

O empirismo da ciência pode ser usado para determinar o que é ou não delírio em temas específicos, mas não todos... e ai?

Seria essa palavra restrita então ao mundo científico?

Com relação ao livro de Richard Dawkins, penso que ele usou essa palavra exatamente porque ele é de um mundo onde tudo pode ser provado ou rejeitado empiricamente. Tudo o mais seria portanto, um delírio. É isso mesmo ou estaria Dawkins delirando? Ou claro, posso também estar delirando a respeito da minha interpretação de Dawkins...

Talvez fosse melhor manter seu uso restrito ao sentido etimológico da palavra, descrito pelo Ebenézer...

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