quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Saiu ou nunca entrou?

Existe uma frase comum nas comunidades da fé, não importando qual a agremiação: “Ninguém sai da igreja, na realidade nunca entrou”...

Quem diz este tipo de frase considera-se membro fiel, pessoa de discernimento, favorecido por inteligência incomum e que pode chegar a este ponto de julgar: “na realidade fulano não saiu, fato é que ele nunca entrou”. E quem entrou? O cidadão que nasceu e mora num país pode dizer que entrou? Nascer num lugar é uma coisa, vir de outro lugar e ali entrar é outra. Um filho da tradição pode se arvorar à condição de afirmar: “continuo aqui porque de fato entrei”? Uma pessoa que nasceu e cresceu num contexto de fé pode dizer que entrou?

E se aquele que, tendo nascido num contexto religioso e depois de ter estudado, especialmente o que pensam os outros meios, resolveu mudar de lugar, pode ser acusado de nunca ter entrado? Acredito que sim e pelo simples motivo: uma pessoa que nasceu num lar pertencente a uma agremiação e que nunca questionou nada, jamais pode dizer que entrou. Quem nasceu e cresceu pode dizer simplesmente isto: nasci aqui e aqui permaneci! E no caso de mudar de habitat terá que admitir: “não saí, na realidade eu nunca entrei, fui posto ali”...

Quantos vivem garbosamente se orgulhando de que professam uma fé, que detêm uma convicção e na realidade são apenas herdeiros da tradição secular? Muitos ou quase todos! É muito difícil, para não dizer impossível, achar uma única alma que possa dizer: “investiguei com todas as minhas forças e hoje posso dizer que estou aqui” ou “analisei todas as fontes, teístas e ateístas e posso dizer que estou aqui”...

Sabem o que mais incomoda? Aqueles que nunca estiveram em lugar nenhum dizendo algo assim: “ele não saiu, na realidade ele nunca entrou. Que pena, está se afastando da verdade...”

Enéias Teles Borges
Postagem original: 25/03/2009

2 comentários:

Carlos H. Barth disse...

Costumo brincar dizendo que existem dois tipos de pessoas no mundo: As que gostam de mim e as que não me conhecem!

É mais ou menos desse ponto que vejo essa afirmação de que "Fulano na verdade nunca entrou". É uma forma de colocar a doutrina em uma espécie de armadura. De dizer que todo ser humano deveria estar ali ou pensar de determinada forma, mas "falhou", ou parou no meio do caminho (cedeu a tentação). Desta forma, transforma-se questionamentos a doutrina em erros de interpretação a priori. A doutrina, os ensinamentos, o pensamento não está errado em hipótese alguma. Apenas existem aqueles que não o compreendem... ou que jamais "entraram" de verdade.

Ricardo disse...

Enéias,

Eu me divirto com esse papo furado religioso.

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