quinta-feira, 10 de setembro de 2009

GLÓRIA, AINDA QUE EFÊMERA


Ele chegou de carro. E que carro! Sem dúvida o melhor estacionado ali, naquele ponto estratégico. Fez questão de parar o veículo num ponto chave. Ninguém conseguiria sair. Só se passassem por cima daquela maravilha sobre quatro rodas. Certamente ninguém faria isso. Era um estacionamento de igreja. Os fiéis jamais tomariam atitude tão vil: estragar aquele carro espetacular.

Entrou na igreja, sentou no primeiro banco e aguardou. A igreja estava lotada. Tudo convergia para a situação ideal. No final das atividades um orador pegou o microfone e fez um anúncio: “atenção proprietário do carro ‘tal’ (descreveu o carro caro e famoso), favor dirigir-se ao local onde ele está estacionado”.

Era a glória! Ele se levantou e passou pelo corredor central. Bem devagar, saboreando o fugaz momento. Todos olhavam para o ilustre proprietário do carro caríssimo!

Foi ao estacionamento e manobrou o carro. Evadiu-se do local. Objetivo alcançado. As pessoas já sabiam que ele tinha um bem precioso e acessível a poucos.

Uma pergunta que não quer se calar, cuja resposta é óbvia: o que aquele indivíduo foi fazer naquele templo religioso?

Certa vez eu ouvi algo interessante: existem pessoas que têm sede de poder. Almejam dirigir alguma coisa. No mínimo anelam ser síndicos do condomínio. Outras, piores, querem estar em evidência. Fazem de tudo para chamar a atenção. Tal prestígio só traz satisfação se for diante dos inferiores (dinheiro). Não adianta se exibir perante iguais ou superiores. É o sabor de ter o melhor. Mostrar o que outros não possuem.

Recentemente prestei serviços jurídicos para um cidadão que tinha em sua garagem vários carros e quase todos financiados. Exibicionismo puro. Ele foi sincero. Em algumas ocasiões não usava os carros em função da irregularidade dos documentos (impostos atrasados) e já tinha deixado de viajar por não ter dinheiro para as despesas de viagem – incluindo combustível.

Quanta bobagem!

Convenhamos: é inaceitável, mesmo que compreensível, tal comportamento de alguns. O que causa maior estranheza é acontecer o episódio acima narrado. E numa igreja!

É o cúmulo? O que você acha? Já presenciou algo assim?
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Postado originalmente em 11/04/2008.
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Enéias Teles Borges.
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3 comentários:

Mauricio Dias Duarte disse...

Concordo.
Já aconteceu comigo.
Meu pai esses dias disse ao ver um super carro: - Por isso que eu falo que você tenque fazer ADM, pra comprar um carro desse. O carro mostra o carater de uma pessoa tambêm.
Alguma coisa assim.
Acho que nessa sociedade de consumo, todas as classes sociais tentam se afastar o maximo da classe pobre.
Seja comprando carros turbinados ou roupas de marca.

Cleiton Heredia disse...

Em uma sociedade onde o "ter" e o "parecer" é mais importante que o "ser", as coisas só podem caminhar para isto mesmo.

Por outro lado (e sempre existe o outro lado), existem alguns "intelectuais" que valorizam tanto a "essência" em detrimento da "aparência", que fazem questão de apregoar seu desapego às coisas materiais vestindo-se de forma relaxada, descuidando do asseio pessoal e se cercando de coisas velhas e estragadas.

Sabe aquele cara que vai num casamento de camiseta, tênis e calça jeans rasgada e suja? Ele na verdade quer chocar e se aparecer falando sem palavras: "Olha como eu sou diferente de vocês! Todos aqui são banais e supérfluos por darem tanto valor para a aparência, mas eu sou diferente de vocês, pois valorizo a essência. Eu tenho conteúdo. Eu sou o cara!"

Na verdade, uma pessoa tão problemática* quanto aquele homem do "carrão" que você comentou nesta postagem.

Mas se formos analisar por esta perspectiva, todos nós somos de alguma forma problemáticos, pois também precisamos nos sentir notados, valorizados e amados. E na tentativa de suprir esta necessidade, cada utiliza aquilo que lhe está à mão. Quem tem dinheiro, o gastará para todos saberem que ele existe, e quem não o possui, investirá em outra coisa para se destacar.

Talvez aquele homem do "carrão" fez o que fez simplesmente como uma forma de dizer: "Olhem! Eu existo!" Uma forma errada? Sem dúvida. Mas numa sociedade cada vez mais individualista como a nossa, a carência afetiva pode levar a alguns absurdos.

Será que se as pessoas valorizassem o homem do "carrão" por aquilo que ele é, e lhe dissessem e demonstrasse claramente isto, ele faria o que fez?

E olha que o cara estava em uma igreja!!!

* Problemática: No contexto em que usei esta palavra estou me referindo ao desequilíbrio entre a "essência" e a "aparência".

Ricardo Cluk disse...

Enéias,

Diz quem foi esse cara para que possamos orar por ele (rs).

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