sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Os dois papagaios...

Imaginem a seguinte ilustração:

Existiam dois homens que gostavam do mar. Um se tornou almirante e o outro um pirata. Os dois ficaram ricos. O almirante tinha o comportamento de um lorde e o pirata comportava-se de forma a contrariar os padrões estabelecidos pela sociedade.

Um dia o almirante resolveu comprar um papagaio e tinha que ser novo (um filhote). Ele queria ensinar-lhe a falar e a se comportar. Seria seu companheiro de viagem.

Por coincidência o pirata pensou da mesma forma e se dirigiu ao mesmo local onde existiam pássaros à venda.

O pirata chegou primeiro e vendo que existiam dois (à disposição) comprou um. Perguntado qual deles queria ele respondeu: “tanto faz”. O vendedor lhe entregou o que estava mais perto da mão.

O almirante, que já tinha chegado, comprou o papagaio que restou.

Os anos passaram e os papagaios cresceram ensinados pelos respectivos donos.

Quando estavam em terra o almirante e o pirata andavam com seus respectivos pássaros nos ombros.

O papagaio do almirante sabia “falar” e o fazia com classe. Palavras bonitas. Treinado, que foi, ao avistar uma mulher dizia logo: “oi madame”! As pessoas ficavam maravilhadas. O papagaio do almirante era um amor. As pessoas diziam: “que belo papagaio!” E mais: “que educação!”.

O papagaio do pirata também sabia “falar” e o fazia igual seu dono. Palavras grosseiras. Treinado, que foi, ao avistar uma mulher emendava um palavrão. As pessoas ficavam indignadas. O papagaio do pirata era um horror. As pessoas exclamavam: “que papagaio nojento!” E mais: “que falta de educação!”.

Vamos refletir? Antes...

Eram dois homens da mesma idade e que resolveram se casar (cada um com uma mulher, claro). Um tornou-se um empresário cujo norte era a ética. O outro não estava preocupado com ética ou qualquer outro preceito moral. Queria viver cada dia do jeito que fosse possível.

Aquele que era ético criou o filho que teve dentro deste padrão de respeito e moral. O outro criou o filho que teve a seu modo, isto é, não estava preocupado com qualquer padrão civilizado.

O filho do pai ético cresceu e se formou médico. Um exemplo. Bom casamento, boas amizades, dinheiro, paz...

O filho do desvairado cresceu e virou bandido. Péssimo exemplo. Não se casou. Juntou-se com várias mulheres e às vezes com mais de uma ao mesmo tempo. Amizades oriundas do crime, dinheiro conseguido com violência. Não tinha paz...

Todos diziam que o médico era um homem de verdade. Todos diziam que o bandido deveria morrer. Bandido bom é bandido morto!

Vamos refletir?

Como é na vida? Pensemos no que ocorre na maioria das vezes. Reflitamos à luz da regra geral. O que acontece menos não é o objeto deste texto. Fiquemos com a massa, com a “esmagadora” maioria.

Por que alguns são bons e tidos como exemplo para a sociedade? Por que muitos são ruins e considerados como uma maldição social?

Já paramos para pensar que o que nos tornou bons ou ruins foram as circunstâncias? Eu estaria tomando o caminho do absurdo ao refletir assim? É mesmo?

Será que as pessoas boas seriam exemplares se tivessem nascido sem alguns favorecimentos da vida? Será que sem as oportunidades que tiveram teriam um comportamento ético salutar?

E os desventurados? Caso tivessem tido uma vida dentro do regramento e possibilidades sociais seriam “maus”?

Somos frutos do contexto?

Penso muito nisso tudo. Por que sou o que sou? Por que sou religioso? Por que sou cristão? Por que não sou ateu? Por que não sou de outra fé não cristã? Por quê?

E se meus pais tivessem se enveredado por outro caminho o que eu seria?

Voltando aos papagaios:

Uma coisa eles tinham em comum, mesmo sendo um do almirante e o outro de um pirata: os dois eram papagaios!

Não é? Imaginem se o pirata tivesse criado o outro e o almirante aquele que era do pirata...

Eram aves condicionadas por seus donos. Elegantes ou grosseiros, uma coisa é real: ambos eram papagaios!

E na vida? Papagaios humanos? Podemos nos orgulhar ou nos envergonhar dos filhos que temos? Eles não seriam frutos do que lhes oferecemos? Podemos nos julgar bons ou maus? Podemos julgar as pessoas tendo como base as oportunidades que tivemos e sem considerar aquelas que elas não tiveram?

Idealizei essa ilustração com o propósito de fazer mais um convite à reflexão. Afinal somos convictos ou aliendados?

Enéias Teles Borges

Postagem original: 26/02/2008
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5 comentários:

Ebenézer disse...

Enéias,

É sempre boa a reflexão sobre esse tema que nos reporta a questões tão importantes quanto à “verdadeira” educação e ao mero condicionamento dos reflexos. É claro que o condicionamento, em certas circunstâncias, é muito bom e necessário, daí a ênfase empresarial na definição de processos produtivos, do treinamento constante realizados por atletas na busca de melhor "condicionamento" físico e por aí vai.

Educação, evidentemente, deve ir além disso. Pouco se fala em "educação para a vida" e muito em "educação para o trabalho". Perguntas aparentemente inocentes como "o que você vai ser quando crescer?" já trazem em si esse conceito, cujo efeito é induzir a criança a pensar em uma profissão que a "encaixe" no cenário social. E a resposta é sempre: vou ser médico, astronauta, jogador de futebol, cantor, modelo, etc. Na sociedade somos identificados não pelo que somos e sim pelo papel que desempenhamos. Portanto, para que pensar ou fazer perguntas do tipo: quem sou?

Nascemos e vivemos em sociedade e, devido a isso, acostumamo-nos a pensar em sociedade como algo "real" e independente de nós, quando, na verdade, ela não passa de mais uma invenção humana. Ora, se fomos nós quem criamos a sociedade então podemos destruí-la e reconstruí-la de outra forma. Porém, isso não interessa àqueles que se beneficiam desse modelo. Curiosamente, são exatamente esses que se mantém no topo da pirâmide e possuem poder e prestígio necessários para ditar os rumos que nós, que estamos na base, seguiremos. A quem exerce o poder não interessa muito o subordinado pensante, questionador, independente. O importante é a obediência, o respeito à hierarquia, a subordinação à autoridade estabelecida. Um cidadão condicionado a fazer “o bem” (aquilo que a sociedade elegeu como tal) é muito mais interessante que aquele indivíduo que se mostra independente e pensante, com potencial para se rebelar e provocar uma revolução social. Com isso quero dizer que, para a sociedade, interessa mais o condicionamento, a educação para o trabalho, do que o livre pensante e educado para a vida. Como disse o poeta, "navegar é preciso, viver não é preciso".

Nasci numa sociedade e por ela fui moldado. Falo português, como arroz e feijão, gosto de futebol, acredito que Deus é brasileiro e que, um dia, irei para o céu... Mais que isso, estudei, assumi um posto de trabalho e passei a contribuir, por meio de impostos, para o sustento desse modelo que me oprime, consome minha energia, requisita quase todo meu tempo e me faz crer que se tiver um carro melhor ou uma casa maior serei mais feliz e terei "status"...

Já pensei em sair dessa "Matrix", mas não estou disposto a engolir nenhuma pílula (azul ou vermelha) proposta pela própria Matrix... Talvez a saída não seja uma porta para fora e sim para dentro.

Enfim, é isso aí. Gostei do texto. Ajudou-me a desenferrujar os poucos neurônios que ainda me restam. Parabéns.

Cleiton Heredia disse...

Na minha maneira de entender, o livre arbítrio moral (capacidade de escolher entre o certo e o errado) estabelece uma significativa diferença entre os papagaios e o seres humanos.

Para um papagaio repetir um elogio ou um palavrão não faz a menor diferença; são apenas sons sem sentido. Ele é incapaz de estabelecer qualquer critério de valor moral em relação aos sons que ouve e repete simplesmente por instinto.

Já o ser humano é bem diferente. Muito embora o meio em que viva (cultura) estabeleça uma enorme influência naquilo que poderá um dia se tornar, existem outros fatores que devem ser considerados na sua formação, como por exemplo, os aspectos genéticos e psicológicos.

Existe uma teoria naturalista/realista chamado "Determinismo" que defende que o comportamento humano é determinado por três fatores: o meio, a raça e o momento histórico.

Não concordo plenamente com o que advoga o determinismo, porém eu o acho mais completo do que simplesmente dizer que o ser humano é fruto somente do meio em que vive.

Uma outra coisa muito importante que não pode ser desprezada é aquilo que afirma Paulo em Romanos:

"A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas criadas. Tais homens são por isso indesculpáveis; porquanto, tendo o conhecimento de Deus não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato." Rom.1:18-21.

Em outras palavras, além do meio (cultura), do momento histórico, da genética, dos aspectos psicológicos, existe aquilo que os teólogos chamam da "lei interior" que estabelece alguns padrões que são universais.

Tudo isto deve ser avaliado diante da possibilidade do ser humano se rebelar contra todos os fatores de influência acima e, em posse de seu livre-arbítrio, escolher algo bem diferente para si.

Carlos H. Barth disse...

A ciência nos traz também algumas informações relevantes para ajudar na reflexão: Pesquisas recentes demonstraram atividade cerebral ligada à tomada de decisões e julgamentos (morais inclusive) anterior ao acionamento das áreas ligadas ao raciocínio. Ou seja: Nosso julgamento e nossa base moral são mais instintivos e inatos do que parecem ser. Estariamos presos a esse "instinto moral"? Se sim, como falar em lívre arbítrio?

Mikaele Ephemeron disse...

Li e pensei muito a respeito. Só discordo em um ponto, as vezes não temos 100% da culpa sobre o que nossos filhos decidirame scolher apra si prórpios. Claro que o aprendizado de casa influência muito nisso, quase 90%, mas muitas vezes, eles, achando-se donos do próprio nariz, decidem por si próprios e fazem escolhas erradas, se fecham nisso. O texto dá a entender muitas coisas, é abrangente, gostei muito dele, adorei mesmo, estou seguindo esse blog.

Obrigado pela visita.

Abraços!

CONVICTOS OU ALIENADOS? disse...

Mikaele,

Concordo com você e fiz uma ressalva no texto. Os exemplos aqui se prendem à maioria dos casos, não todos.

Abraços.

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