terça-feira, 9 de novembro de 2010

Saudade...

A saudade nos faz refletir e perguntar: que sentimento é esse, que nos causa suspiros profundos? Uma definição clássica, que pode ser encontrada em dicionários:

"Sentimento mais ou menos melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de um lugar ou de uma coisa, ou à ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados pela pessoa em causa como um bem desejável". (dicionário HOUAISS)

Lembro-me de um período mágico em minha vida, num internato, quando fiz o segundo grau e posteriormente a faculdade. Ali este sentimento nos visitava pelo menos duas vezes por ano. No meio e final de cada ano os alunos saíam para suas casas ou trabalhos de férias. Outros voltavam outros não. Alguns não retornavam porque tinham concluído seus objetivos acadêmicos. Vários não retornavam por falta de recursos...

Uma frase ficou gravada em minha mente: não nos afastamos, apenas nos distanciamos para ter a alegria do reencontro. Que maravilha! Era assim mesmo. A frase fazia sentido. Não sentíamos vergonha de dizer. A saudade era, para cada um de nós, a nobreza por excelência.

Faço um tributo a Casimiro de Abreu. Grande poeta (1839-1860), que inspirado na obra de Gonçalves Dias, externou toda a nostalgia que carregava em seu peito...

A síntese disso tudo é encontrada no poema “Meus oito anos”:

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é - lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã.
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberto ao peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora de minha vida (...)

Enéias Teles Borges - Editor

Postagem original: 22/12/2007
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Um comentário:

Ebenézer disse...

Enéias,

Alguém (não me lembro quem) afirmou que o homem é um ser do desejo e desejo é sintoma de privação. Nunca desejamos o que temos e sim o que nos falta. A fome, a sede, o sono são sintomas que dizem ao corpo que algo lhe falta. De igual modo, a saudade nos fala de uma ausência.

Diferentemente da fome, da sede e do sono para os quais conhecemos o remédio apropriado, com a saudade nem sempre sabemos lidar. Saudade – sentimento suave e triste que se agiganta, desatina, tortura, machuca e subtrai-nos, por vezes, o prazer de viver.

Saudade é um olhar para traz... Sinto-me tentado a olhar para trás quando o presente não me motiva e o que vejo à frente não me fascina. Nessas ocasiões, o passado se torna intenso, mais belo e mais radiante do que de fato foi... Coisas da mente e do coração. Coisas de quem é humano. Mas saudade é muito mais que isso e, suas causas bem mais sutis.

Também sinto saudades, sem constrangimento, e me defendo parafraseando Jesus: "Quem nunca sentiu saudades, que atire a primeira pedra"!

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