
Outro homem não tinha dúvida. Queria condições para comprar um pouco de comida. Sua família passava por dificuldades. Faltava dinheiro para tudo, até para a comida. Seu pedido era um só e para aquele momento. Comida! Podia ser arroz e feijão, poderia ser apenas um destes ou qualquer outro alimento. Lutou e orou. Deixou o assunto nas mãos do seu deus.
O primeiro homem recebeu o sinal! Sonhou com uma mulher em vestes vermelhas. Era o bendito sinal! Comprou a Ferrari! O outro homem passou perto de uma feira livre. Alimentos estragados misturados com alimentos bons estavam sendo lançados no lixo. Era a resposta. Pegou o que prestava e levou para casa. Conseguira o alimento!
Às vezes eu me deparo com cenas assim. Seriam hilárias, caso não fossem reais. Pedidos dirigidos à divindade. Pedidos fúteis e pedidos necessários. Alguns enxergam as mãos do seu deus numa aquisição de bens, que pelo ponto de vista da necessidade e praticidade se mostram fúteis. Outros sentem as mãos do ser todo poderoso dentro de um depósito de lixo.
Seria mesmo a ação de um ser onipotente? Penso sempre em algo curioso que é o seguinte: sendo verdadeira a ação divina por que não atender apenas os pedidos necessários? Se as bênçãos auferidas e que resultam em bens supérfluos fossem destinadas aos miseráveis que querem apenas o “pão vil” não haveria muito mais milagres? Quantos pratos de comida seriam servidos e muitos seriam alimentados atendendo somente os pedidos necessários? Existiriam milhares de pessoas felizes e agradecidas, vendo diariamente a multiplicação dos pães e peixes em suas vidas de sofrimentos.
Partindo do pressuposto que esse ser maravilhoso atende pedidos fúteis e necessários eu passo a imaginar cenários diferentes: benesses fúteis não sendo concedidas e comida não sendo colocada na mesa do pobre. O que teríamos, nesse imenso mundo de alienação em massa? É possível que muitos ricos e pobres se irmanariam numa única frase “meu deus não quis assim”. “Ele me disse não ou, quem sabe, aguarde um pouco...”
As respostas dos alienados são invariavelmente as seguintes: “deus não quis ou não permitiu ou me pediu paciência”. “Deus atendeu minha prece”. Como sói acontecer sempre haverá uma resposta. É o velho argumento de que tal deus atende concedendo, negando ou pedindo paciência.
Enquanto isso muitos morrem de inanição no mundo enquanto outros compram carros, roupas, jóias, palácios (...), armazenam dinheiro e mais dinheiro. Todos repetem dizendo que “deus quis assim ou assim permitiu”. Dizem mais: “as diferenças sociais e a fome no mundo são consequências do pecado...
Pecado? Ele entrou no mundo? Quem quis? Quem permitiu? Seria hilariante, caso não fossem reais: a ausência da convicção e a presença da alienação...
Enéias Teles Borges
Postagem original: 16/09/2009
3 comentários:
O cúmulo da convicção alienada é pensar que tudo de bom que acontece neste mundo vem da ação direta de Deus em forma de bençãos, e tudo que acontece de mal é simplesmente consequência do pecado.
Certa vez fui a um culto de oração numa quarta-feira à noite, e lá presenciei uma senhora de posses se levantar para agradecer a mansão que seu marido havia comprado num bairro nobre de São Paulo (bençãos de Deus), enquanto um pobre coitado se levantou na sequência para pedir oração para a igreja, pois havia perdido o emprego, a esposa estava grávida de 3 meses e tinha um filhinho de 2 anos deficiente físico que requeria cuidados especiais e equipamentos adaptados que ele não tinha dinheiro para comprar, mas no final ele agradeceu a Deus por não ter perdido a fé.
Como pode???
Amigo, se Deus existe deve ser um péssimo administrador.
Deus dá o frio conforme o cobertor!.
A futilidade para quem conquistou e a necessidade para quem provocou.
Uns conquistam Deus enquanto outros provocam o Diabo. Cada um tem o merecido. Nós somos responsáveis pelo nosso próprio futuro.
Cleiton,
Certa vez alguém disse que “se deus existe ele tem que ter uma boa desculpa”.
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